HOME |
|
Cap. 4 A Complementaridade das Investigações Clássicas e
Estatísticas Uma revisão dos principais pontos de vista expostos é, porventura, a
introdução mais expedita à problemática deste capítulo. O nosso estudo da inteligência humana começou com o reconhecimento dos
aspectos psicológicos da intelecção. Prosseguiu com definições geométricas
como produtos da intelecção, e daí para as redefinições que resultam de
pontos de vista superiores. A argumentação virou-se então para o tipo
estranho de intelecção que capta como o entendimento de certos dados ou a
resposta, ou uma dada questão, procuram entender que não há nada para, no
fundo, ser entendido. Finalmente, efectuou-se uma generalização que reconhece
em todos os dados um resíduo empírico do qual a inteligência abstrai-se. O segundo capítulo, vira-se para as intelecções no campo da ciência empírica.
Após um breve contraste, entre desenvolvimentos matemáticos e científicos do
entendimento, a atenção centra-se na origem das pistas que formam o primeiro
momento da intelecção. Observou-se, ao investigar, que a inteligência
antecipa o acto de entendimento que busca de forma árdua. O conteúdo desse
acto antecipado designa-se heuristicamente. As propriedades do conteúdo
antecipado e designado constituem as pistas que a inteligência emprega para
orientar-se na direcção da descoberta. Finalmente, uma vez que não existem
apenas intelecções directas que entendem o que há para se entender, mas também
esse estranho tipo de intelecções que entendem não haver nada para se
entender, as estruturas heurísticas dividem-se em dois grupos, nomeadamente as
clássicas e as estatísticas. A estrutura heurística clássica é a antecipação
inteligente do sistemático-e-abstracto para o qual o concreto converge. A
estrutura heurística estatística é a antecipação inteligente do sistemático-e-abstracto
que estabelece uma fronteira ou uma norma da qual o concreto não diverge
sistematicamente. Em si mesmas, as estruturas heurísticas são vazias. Antecipam uma forma a
preencher-se. Agora, tal como a forma é antecipada nas suas propriedades
gerais, também o processo de preenchimento antecipa-se nas suas propriedades
gerais. Existem, assim, cânones do método empírico. Se a intelecção é em
dados, existem cânones de selecção. Se as intelecções sobre os dados
acumulam-se num circuito de apresentações, de intelecções, de formulações,
de experiências e de novas apresentações, existe o cânone das operações.
Se a ciência aplicada envolve intelecções acerca de materiais, de
finalidades, de agentes e de instrumentos, então a ciência pura, enquanto
anterior à aplicada, relaciona-se, unicamente, com a inteligibilidade imanente
dos dados, sendo por isso sujeita a um cânone de relevância. Se a ciência
pura vai além dos dados na medida em que alcança a sua inteligibilidade
imanente, apenas acrescenta aos dados o seu conteúdo inteligível; resulta então
um cânone de parcimónia, que excluí qualquer afirmação que ultrapasse o
verificável pelos dados. Se alguns dados são passíveis de se entender, então
todos têm que se entender; o objectivo científico é o entendimento de todos
os fenómenos e, deste modo, o método científico é sujeito a um cânone de
explicação completa; segue-se que não há excepções para qualquer extensão
ou duração vividas; e esta conclusão implica a mudança de um ponto de vista
galiliano para um ponto de vista einsteiniano. Finalmente, embora todos os dados
tenham que se explicar, continua a haver certos aspectos de todos os dados que
se explicam da estranha forma já referida. Existem resíduos estatísticos, uma
vez que a totalidade do sistemático é abstracto, o abstracto aplica-se ao
concreto apenas pela adição de novas determinações e, dada a natureza do
caso, essas novas determinações não se podem relacionar sistematicamente
entre si. Esta simples enumeração dos pontos estabelecidos nos primeiros três capítulos
confronta-nos com um problema. Tanto as estruturas heurísticas da ciência como
os cânones do método empírico implicam uma dualidade. Além de alcançar a
inteligibilidade imanente nos dados de modo positivo, a inteligência humana
também alcança o domínio do concreto através do abstracto-e-sistemático. No
entanto, embora se admita esta dualidade como um facto, pode-se ainda questionar
se ela é definitiva, se os processos de investigação clássico e estatístico
são isolados ou relacionados, e se levam a resultados isolados ou relacionados.
Neste capítulo procura-se uma resposta para estas questões, a dividir-se em três
partes. Primeiro, adiantar-se-á que as investigações clássicas e estatísticas são
tipos complementares de conhecimento'". Nas suas antecipações heurísticas,
nos seus procedimentos, nas suas formulações, nas suas diferenças de abstracção,
na sua verificação, e nos seus domínios dos dados, mostra-se como cada tipo
de investigação complementa e é complementada por outra. Em segundo lugar, além da complementaridade no conhecimento, existe também
a complementaridade no que há para se conhecer. Quer se goste ou não, as
estruturas heurísticas e os cânones do método constituem um a priori.
Estabelecem antecipadamente as determinações gerais não só das actividades
do conhecimento, mas também do conteúdo do que há para se conhecer. Tal como
as noções de ciência e de método em Aristóteles, resultam na sua hierarquia
cósmica; tal como a redução de Galileu, das qualidades secundárias a
qualidades primárias, necessitou de um determinismo mecanicista, também a
nossa afirmação simultânea das investigações clássica e estatística
envolve uma visão do mundo. Que visão é essa? Em terceiro lugar, existe a clarificação que resulta do contraste. Por
consequência, após a tentativa de determinação da visão do mundo, na qual
nos empenhamos ao aceitar as estruturas heurísticas e os cânones do método
empírico, expõe-se as diferenças face às visões do mundo de Aristóteles,
de Galileu, de Darwin, e dos indeterministas contemporâneos. 1
A Complementaridade no Conhecimento
[105-115]
1.1 As Estruturas Heurísticas Complementares
[105] Em primeiro lugar, as antecipações heurísticas, dos procedimentos clássico
e estatístico, são complementares. O sistemático e o não sistemático são
alternativos contraditórios de uma dicotomia. A investigação do tipo clássico
é uma antecipação do sistemático. A investigação do tipo estatístico é
uma antecipação do não sistemático. Daqui infere-se que, em cada caso, a
antecipação clássica ou a antecipação estatística têm que ser correctas. Seguem-se dois corolários. O primeiro é a abertura do método empírico. O simples facto da investigação
é, em si mesmo, uma pressuposição, visto implicar algo a conhecer-se através
do entendimento dos dados. No entanto, este pressuposto é inevitável, visto
separar as atitudes científica e não científica perante a experiência.
Contudo, esta pressuposição é mínima. Não determina a priori se um conjunto
de dados seleccionado reduz-se a um sistema de forma clássica, ou, por outro
lado, se deve considerar-se ao mostrar como o concreto diverge não-sistematicamente
de previsões sistemáticas. O segundo corolário é a relevância do método empírico. O método empírico
é um procedimento de tentativa e erro, e a única maneira de se decidir que um
certo agregado de observações é ou não redutível ao sistema consiste em
formular ambas hipóteses, estabelecer as suas implicações, e testar as suas
implicações mediante os resultados observados. 1.2
Os Procedimentos Complementares
[106-108] Seguidamente, as investigações clássica e estatística são processos
complementares. Separam dados relacionados sistemática e não sistematicamente,
e o isolamento de uns é um passo para a determinação dos outros. Todos estão familiarizados com esta separação quando se efectua,
fisicamente, através da experimentação. Como se viu, o objectivo do
experimentador é isolar uma conjunção definível de elementos e expor as suas
operações tal como ocorrem quando não influenciadas por factores externos. Uma vez mais, a separação física nem sempre é possível, daí que se
tente realizar com o pensamento aquilo que não se pode atingir pela acção.
Deste modo, à medida que a ciência progride, invoca as leis estabelecidas para
procurar determinar o desconhecido. Assim sendo, uma vez conhecida a lei de
Boyle, esta assume-se para determinar a lei de Charles, uma vez conhecidas as
duas, ambas assumem-se na determinação da lei de Gay-Lussac. De forma
semelhante, em todos os domínios, as leis conhecidas utilizam-se para guiar a
experimentação, para eliminar da consideração o que se explicou, e para
fornecer premissas para a interpretação dos resultados observados. Esta separação, quer física, quer mental, não se confina às leis clássicas.
Todas as leis pertencem a um único campo complementar. Por esta razão, foi
possível invocar as leis de erros prováveis e assim eliminar uma componente não
sistemática nas observações e medidas. Da mesma forma, as leis estatísticas
de Mendel sobre os caracteres genéticos macroscópicos levou a postular
entidades microscópicas denominadas genes; a cada gene atribuiu-se, no modelo
clássico, um único e determinado efeito e manifestação; genes com efeitos
incompatíveis classificam-se de dominantes e recessivos; e, assim sendo, as
combinações estatísticas de genes concebidos classicamente tornam-se a
explicação de fenómenos macroscópicos não sistemáticos. O leitor surpreende-se que juntemos as leis dos erros prováveis com as leis
mendelianas da hereditariedade. Mas do nosso ponto de vista, ambos pertencem ao
mesmo grupo. Nos dois casos, a lei assume um componente nos dados. Em ambos os
casos, a descoberta da lei fundamenta uma separação mental da componente
sujeita à lei conhecida de outras componentes ainda por determinar. Finalmente,
em ambos os casos, a descoberta de uma lei estatística fundamenta a separação
mental que leva à descoberta não só da lei clássica como também da lei
estatística. Esta complementaridade dos procedimentos clássico e estatístico possui um
importante corolário. Nem sempre é possível a exclusão experimental de
factores físicos externos. Quando não é, existe a alternativa da descoberta
da lei do factor externo cuja influência permite interpretar o resultado.
Gostaríamos de chamar a atenção para o corolário das leis estatísticas
serem aplicáveis na determinação das leis clássicas. Uma vez que o
discernimento das leis estatísticas permite a separação mental da componente
não sistemática nos dados, cria, deste modo, liberdade que permite a investigação
da componente sistemática restante. Perguntar-se-á então, se é plausível que as investigações estatísticas
da mecânica quântica abram caminho para o posterior ressurgimento do
pensamento clássico no campo da física subatómica. Creio que esta é uma questão ambígua. Significa regressar ao antigo
pensamento clássico, com os seus modelos imagináveis, a sua convicção na
possibilidade universal de síntese imaginativa, a sua afirmação de um
determinismo mecanicista, e o seu conceito de explicação como a redução de
qualidades secundárias a primárias. Por outro lado, é possível falar-se de
pensamento "clássico" num sentido transposto e análogo. Neste caso,
conceder-se-ia à imaginação um valor heurístico notável, visto que as
imagens fornecem os materiais para a intelecção; mas, ao mesmo tempo,
negar-se-ia qualquer valor representativo às imagens não verificadas e não
verificáveis as leis clássicas conceber-se-iam de forma abstracta, a abstracção
conceber-se-ia de forma enriquecedora e, assim sendo, o conhecimento total das
leis clássicas não irá excluir a existência de resíduos estatísticos. Uma vez feita esta distinção, torna-se óbvia a nossa resposta à questão
anterior. À luz dos cânones da explicação completa, da parcimónia, e dos
resíduos estatísticos, não esperamos qualquer retorno ao antigo pensamento clássico.
Contudo, a esta mesma luz, esperamos que a mecânica quântica, interpretada
estatisticamente, abra caminho para um novo desenvolvimento do pensamento
"clássico", num sentido transposto e análogo. Na realidade, o princípio
de exclusão, de Pauli, proporciona a premissa para a determinação dos estados
dos electrões no átomo; e embora as mudanças destes estados ocorram
estatisticamente, as séries de estados são tão sistemáticas e regulares, tal
como a tabela periódica dos elementos químicos. Da mesma forma, notam-se tendências
clássicas na descoberta de novas entidades subatómicas para além dos mais
familiares electrões, protões e neutrões. 1.3 As Formulações complementares
[108-110] Em terceiro lugar, as formulações clássica e estatística são
complementares. As formulações clássicas reportam-se a conjugados, que
verificam-se apenas em acontecimentos. As formulações estatísticas, por seu
turno, reportam-se a acontecimentos, que se definem por conjugados. O facto da formulação clássica depender da formulação estatística vem
à luz ao sondar-se o significado da condição clássica "tudo o resto
sendo iguale." O que é tudo o resto? Em que consiste a sua igualdade?
Estas questões não possuem uma resposta que seja, simultaneamente, detalhada e
sistemática. A condição que limita as leis clássicas consiste,
efectivamente, num padrão relevante de uma série de condições divergentes.
Tal série varia com as circunstâncias, e o agregado dos padrões dessas séries
é, ao mesmo tempo, enorme e não sistemático. Por outras palavras, as leis clássicas
dizem o que acontece se as condições cumprirem-se; as leis estatísticas dizem
com que frequência as condições se cumprem; e assim a frase "tudo o
resto sendo igual" consiste numa vaga referência aos resíduos estatísticos,
que são o domínio das leis estatísticas complementares. A dependência inversa, das formulações estatísticas face às clássicas,
vem à luz ao questionar-se quais as investigações estatísticas com
significado científico. Assim sendo, qualquer pessoa reconhece uma diferença
de significância entre determinar a frequência de ruivos entre os tocadores de
trombone e, por outro lado, a medição da intensidade de espectros lineares. Em
ambos os casos, atinge um número que é encarado como uma frequência real, mas
não é óbvio que seja igual em ambos os casos a probabilidade de contribuir
para o avanço da ciência. O avanço da ciência é assegurado quando operamos
à luz do conhecimento presente em direcção à solução de problemas bem
formulados. Logo que qualquer domínio da ciência ultrapasse o seu estado
inicial, abandona as expressões da linguagem convencional e inventa termos técnicos
próprios. Estes termos técnicos têm a sua origem nas correlações
consideradas significativas; estas são, ou de alguma forma dependem, do que
designámos por conjugados puros. Consequentemente, à medida que o investigador
estatístico procede à luz dos discernimentos adquiridos em direcção à solução
de problemas bem formulados, define acontecimentos ao apelar, directa ou
indirectamente, para os conjugados puros implícitos nas leis clássicas. No entanto, o leitor pode questionar se esta perspectiva encara-se como
definitiva. É bem verdade que as classificações científicas e as definições
actuais dependem da descoberta e da formulação de leis clássicas. Mas não
será previsível que um desenvolvimento mais profundo da investigação estatística
resulte na definição implícita de termos técnicos pelas leis estatísticas e
não pelas clássicas? Embora, aparentemente, muitos respondam afirmativamente a esta questão, eu
não posso de forma alguma concordar. Possuo várias razões. A resposta
"sim" a uma questão para a reflexão obtém apenas um certo sentido
quando revertemos do "sim" para a pergunta, e que a sua origem na
resposta descritiva ou explicativa a uma questão para a inteligência. O
evento, o acontecimento, a ocorrência, corresponde ao simples "sim".
Para dizer o que acontece, o que ocorre, é necessário por uma questão que não
se responda por um "sim" ou por um "não". Temos de apelar
ou aos conjugados experienciais da descrição, ou aos conjugados puros da
explicação. Mostrado isto, não esperamos que os eventos gerem as suas próprias
definições nem mesmo se espere que o "sim" ou "não"
estabeleçam o que afirma ou que se nega. Finalmente, se os eventos não geram
as suas definições, então, as frequências de eventos também não o fazem; não
existe qualquer razão para esperar que diferentes tipos de eventos sejam
diferentes frequências numéricas; ou mesmo, que as frequências numéricas
sirvam para especificar os tipos de eventos que queremos referir. Existe, assim, uma complementaridade das formulações clássica e estatística. Para as formulações estatísticas serem contribuições significativas para o avanço da ciência, apelam para conjugados puros e experienciais das classificações e definições clássicas. Inversamente, os conjugados das formulações clássicas só se verificam em eventos com ocorrência estatística, sendo a sua imanência nos resíduos estatísticos revelada pela condição "o resto é igual". Não é inusitado concluir esta subsecção clarificando uma ligeira confusão.
É bem verdade que as leis estatísticas também estão imanentes nos resíduos
estatísticos, daí que se enquadrem na condição "o resto é igual".
Se tem a probabilidade p/q, continua a haver condições para a ocorrência da
condição Q, e apenas quando estas condições cumprem-se é verificável a
probabilidade de p/q. A frequência deste cumprimento indica-se ao afirmar que
"Q segue R" tem a probabilidade q/r, de modo que uma lei estatística
depende da outra. Contudo, esta interdependência das leis estatísticas, embora
verdadeira, ultrapassa este tópico. De forma alguma, invalida a significativa
reclamação da dependência das formulações clássicas em relação às estatísticas
revelar-se pela condição "tudo o resto sendo igual". 1.4 Os Modos de Abstracção Complementares
[110-111] Em quarto lugar, existe uma complementaridade nos modos de abstracção. O procedimento heurístico clássico assenta na hipótese de as relações
entre os dados serem em algum grau sistemáticas, e dedica-se à determinação
do significado dessas relações sistemáticas. O procedimento heurístico estatístico assenta na hipótese das relações
não sistemáticas, e procura determinar uma frequência ideal da qual as frequências
reais possam divergir, mas apenas de forma não sistemática. Em ambos os casos, o resultado é abstracto. A lei clássica representa o
sistemático e prescinde do não sistemático. Por outro lado, a lei estatística
representa, não a frequência real dos eventos reais, mas a frequência ideal
– da qual a frequência real diverge. Embora ambos os tipos de lei sejam abstractos, diferem no seu modo de
abstracção. A lei clássica restringe-se ao sistemático, ignorando o não
sistemático. A lei estatística, pelo contrário, assume o não sistemático
como premissa. Em si mesma, obviamente, esta premissa não produz conclusões
como as frequências abstractas, ideais e universais denominadas probabilidades.
O que respeita ao investigador estatístico não é, deste modo, nem o puramente
sistemático, nem puramente não sistemático, mas o sistemático que estabelece
os limites ideais, dos quais o não sistemático não diverge sistematicamente. Estes dois modos de abstracção são, notoriamente, complementares. No seu
primeiro movimento, a investigação determina a componente sistemática dos
dados; no seu segundo movimento, a investigação vira-se para a tarefa concreta
de determinar a forma da componente sistemática dos dados moderar a não sistemática.
A perspectiva completa emerge apenas da combinação dos dois movimentos – daí
que sejam complementares. Há outro aspecto nesta complementaridade. As relações sistemáticas que
ocupam a investigação clássica, são principalmente as relações das coisas,
não com os nossos sentidos, mas entre si. À medida que as relações das
coisas entre si são consideradas em abstracto, e igualmente independentes da
sua relação com os nossos sentidos, surge um princípio de equivalência para
todos os sentidos, uma vez que se abstrai igualmente de todos. Por outro lado,
ao passarmos da investigação clássica para a estatística desaparece a
interpretação anterior do princípio da equivalência. É verdade que, tal
como à teoria da probabilidade não se pode negar a conveniência das funções
contínuas, também não há razão a priori de privá-la da vantagem da invariância
completa. No entanto, como se pode recordar, a teoria estatística lida com
eventos seleccionados em processos dada a possibilidade de medição rigorosa, e
a continuidade das suas funções refere-se, não à continuidade do processo
concreto, mas sim à disponibilidade permanente das normas ideais das quais os
eventos divergem de forma não sistemática. Tal como estas normas, também a
sua invariância sai do campo das relações explicativas. 1.5 A Complementaridade na Verificação
[111-112] Em quinto lugar, as leis clássicas e estatísticas são complementares na
sua verificação. Isto afirma-se, basicamente, ao dizer-se que as leis clássicas
determinam o que acontece caso as condições se verifiquem, enquanto as leis
estatísticas determinam com que frequência se espera que as condições se
verifiquem. Contudo, há um reconhecimento mais profundo desta
complementaridade, mostrar como a determinação das leis clássicas deixa espaço
à determinação das leis estatísticas e vice-versa. Assim sendo, ao supor o conhecimento exacto e completo de todas as leis clássicas,
não se exclui a possibilidade de verificação das leis estatísticas. Um
conjunto de leis clássicas, dito P, estaria exacto e completo se não houvesse
possibilidade de as substituir por um conjunto diferente, dito Q. Deste modo, não
havia possibilidade de substituir P por Q se não houvesse divergência sistemática
entre os dados e o conjunto de leis P; visto que os conjuntos P e Q diferem como
leis, daí que difiram sistematicamente; e assim, a verificação do conjunto Q
no lugar do conjunto P pressupõe uma divergência sistemática entre o conjunto
P e os dados. Finalmente, embora não haja divergência sistemática entre o
conjunto P e os dados, há uma divergência não sistemática que proporciona o
campo de investigação e verificação das leis estatísticas. Uma vez mais, e como foi visto,' o conhecimento exacto e completo das leis
clássicas não só deixa espaço para possíveis investigações estatísticas,
como tem de o realizar. Já que tal conhecimento exacto e completo engloba todas
as relações sistemáticas entre determinados dados; mesmo assim, tal
conhecimento é abstracto e por isso necessita de determinações adicionais
para aplicar em instâncias concretas; segue-se que as determinações
adicionais não se relacionam, sistematicamente, umas com as outras; há, deste
modo, um campo para leis estatísticas. Finalmente, as investigações estatísticas, por seu lado, não possuem uma
tendência genuína para aspirações totalitárias. Além das previsões estatísticas
existem previsões profundamente rigorosas exemplificadas pela astronomia, e que
assentam na existência de esquemas de recorrência. Mas, a maneira inteligente
de realizar estas previsões é analisar os esquemas até atingir as leis clássicas
que os compõem. Copérnico corrigiu o esquema imaginativo de Ptolomeu; Kepler
corrigiu os círculos de Copérnico; mas foi Newton quem descobriu as leis
subjacentes e Laplace quem revelou a periodicidade do sistema planetário. Da
descoberta destas leis, o grande movimento de pensamento chamado ciência
moderna, recebeu a sua mais poderosa confirmação. Alcançou isso porque, pelo
menos durante dois séculos, liquidou a tendência humana comum de falar, não
de leis precisas, mas da sequência vulgar de eventos ou do decurso normal da
Natureza. Actualmente, tem vindo à luz a profunda significância das leis estatísticas.
Mas para que este novo movimento não degenere na velha conversa acerca do que
normalmente acontece, tem de manter contacto com a precisão empiricamente
estabelecida das formulações clássicas. As leis estatísticas não possuem
maior significância científica que as definições dos eventos cujas frequências
eles determinam; a menos que estas definições determinem-se cientificamente, o
pensamento estatístico recai na insignificância pré-científica. 1.6 A
Complementaridade nos Dados Explicados
[112-114] Em sexto lugar, as leis clássicas e estatísticas são complementares nos
seus domínios de dados. Isto não transparece que alguns dados se expliquem por
leis clássicas e outros dados por leis estatísticas, mas que certos aspectos
de todos os dados recebem explicações do tipo clássico enquanto outros
aspectos dos mesmos dados se expliquem segundo uma via estatística. Assim sendo, a suposição heurística clássica infere que os semelhantes são
entendidos similarmente. Em consequência, as classificações preliminares
baseiam-se na semelhança com os sentidos. Contudo, o cientista interessa-se nas
relações das coisas entre si, não com os nossos sentidos. Daí que as
classificações preliminares sejam substituídas pela emergência e
desenvolvimento de termos técnicos que derivam, não da similaridade sensível,
mas de similaridades de proporção regularmente variável ou constante; e no
limite alcança-se o que denominamos de conjugados puros, ou seja, termos
definidos implicitamente pelas correlações empiricamente estabelecidos nas
quais ocorrem. Contudo, reconhecer os dados como semelhantes não é reconhecê-los em
todos os seus aspectos. Cada dado é apenas uma instância dos dados. Emerge a
partir de uma pluralidade do contínuo. Existe num lugar e tempo particulares.
Ocorre rara ou frequentemente. Estes aspectos comuns a todos os dados são
ignorados nas explicações do tipo clássico. A lei da alavanca nada nos diz
acerca da frequência da existência de alavancas, dos locais onde se podem
encontrar, dos tempos de funcionamento. Daí que as explicações do tipo clássico
complementem-se através de explicações posteriores de um diferente tipo. Também não é difícil constatar que, pelo menos de um modo geral, as leis
estatísticas fornecem este tipo de explicações complementares. A forma geral
da lei estatística é que em p ocorrências da ocasião P, tende a haver q
ocorrências do evento Q. Agora, a ocasião P é em si mesma um evento ou
combinação de eventos. Em qualquer caso possui a sua probabilidade. Do mesmo
modo, as ocasiões em que P é provável têm a sua probabilidade, e daqui surge
uma retrogressão indefinida de probabilidades do tipo Q. De uma forma
abrangente, para eventos de qualquer tipo X, existem retrogressões
correspondentes indefinidas de probabilidade. Não é notório, de forma imediata, que tais retrogressões combinem-se
numa única perspectiva. Mas é suficiente para os objectivos presentes notar
que, se esta combinação fosse possível, estar-se-ia a caminho de obter uma
explicação estatística dos dados nos seus números e na sua distribuição
espaço-temporal. Ao invocar, somente, a mais simples das considerações, as
probabilidades fracas compensam-se por um elevado número de ocasiões, de modo
que o provável, uma única vez num milhão de ocasiões, espera-se um milhão
de vezes num bilião de ocasiões. Do mesmo modo, a raridade das ocasiões
compensa-se por longos intervalos de tempo, de modo que as ocasiões ocorrem
apenas uma vez num milhão de anos, todavia acontecem mil vezes num milhar de
milhões de anos. E, deste modo, emerge a significância explicativa das leis
estatísticas. Porque existem no mundo da nossa experiência números tão
vastos e intervalos de tempo tão longos? Porque as probabilidades são baixas,
os números têm que ser altos; porque as ocasiões são raras, os intervalos de
tempo têm que ser longos. Em si mesma, trata-se de uma conclusão muito modesta. No entanto, embora a
proeza seja quase insignificante, as possibilidades são bastante
significativas. As leis estatísticas possuem a capacidade de gerar a explicação.
A sua pressuposição heurística é, simplesmente, que o não sistemático não
diverge sistematicamente do sistemático. Mas esta incapacidade de divergência
sistemática, quando combinada com grandes números e longos intervalos de
tempo, é equivalente a uma tendência positiva, a uma ordem inteligível, a um
impulso efectivo, que não é menos explicativo que as conclusões rigorosas
baseadas em leis clássicas. Por outras palavras, probabilidade é uma coisa,
acaso é outra. Probabilidade é uma norma ideal, que pela sua idealidade é,
concretamente, bem sucedida a longo termo. Acaso é a mera a divergência não
sistemática das frequências reais em relação às frequências ideais
denominadas probabilidade. O acaso nada explica. Pertence irremediavelmente ao
resíduo apenas empírico, aos aspectos dos dados dos quais a inteligência
sempre se abstrai. Mas a probabilidade é uma inteligibilidade; é como se fosse
salva do resíduo meramente empírico pelo expediente indirecto, através do
qual a inteligência investigadora estabelece as antecipações heurísticas das
investigações de tipo estatístico. 1.7 Sumário
[114-115] Temos considerado a complementaridade das investigações clássica e estatística
como formas de conhecimento. Vimos que esta complementaridade existe em cada um
dos estados ou componentes do processo de investigação. Há a antecipação
heurística clássica do sistemático; há a antecipação heurística
complementar estatística do não sistemático. De seguida, determinar a lei clássica
ou estatística é abrir caminho para posteriores leis de cada tipo; tanto as
leis clássicas como as leis estatísticas reportam-se a um único campo
complementar, e ao conhecer ambas efectuamos a separação mental entre os tipos
de dados reconhecidos e os tipos que continuam por se explicar. Em terceiro
lugar, existe a complementaridade de formulações: os conjugados puros e
baseados na experiência das leis clássicas apenas verificam-se em eventos; os
eventos apenas ocorrem se tudo o resto é igual; e a não especificação de
tudo o resto equivale a um reconhecimento inconsciente do agregado de padrões não
sistemáticos de séries divergentes de condições; inversamente, como os
conjugados verificam-se apenas em eventos, os eventos definem-se apenas por
conjugados, e as leis estatísticas de eventos só possuem significância científica
já que empregam definições geradas por procedimentos clássicos. Em quarto
lugar, existe a complementaridade nos modos de abstracção: leis clássicas
reportam-se ao sistemático em abstracção do não sistemático, às relações
das coisas, entre si, em abstracção das suas relações com os nossos
sentidos; mas as leis estatísticas consideram o sistemático ao estabelecer
limites ao não sistemático, e confinam-se aos eventos observáveis que incluem
uma relação com os nossos sentidos. Em quinto lugar, os dois tipos de lei
complementam-se na sua verificação: o conhecimento exacto e completo das leis
clássicas não invade com sucesso o campo das leis estatísticas; e as
investigações estatísticas confrontam-se com recorrências regulares que
admitem explicações do tipo clássico. Finalmente, há complementaridade nos
aspectos dos dados explicados pelos diferentes tipos de leis: os dados enquanto
semelhantes são explicam-se pela via clássica; mas os seus números e
distribuições são, somente, inteligíveis através da síntese das considerações
estatísticas. 2 A Complementaridade no Conhecido
[115-128] Se a primeira parte deste capítulo incidiu na exibição da
complementaridade das investigações clássica e estatística do ponto de vista
do conhecer, a segunda parte dirige-se à determinação da complementaridade
correspondente do ponto de vista do que há para se conhecer. Visto que conhecer
e conhecido, se não são uma identidade, têm pelo menos alguma correspondência,
e como o conhecido só se atinge através do conhecer, as características
estruturais de um têm de reflectir-se no outro. A visão do mundo de Aristóteles
resulta da sua distinção entre as leis necessárias dos corpos celestes e as
leis contingentes das coisas terrenas. O determinismo mecanicista teve a sua
base científica no conceito galileano da explicação como redução das
qualidades secundárias a primárias. De forma semelhante, qualquer metodologia
plenamente consciente não evita uma implicação paralela e, deste modo, para
sermos como as avestruzes, temos de encarar a questão: Que visão do mundo
subjaz na nossa afirmação simultânea das leis clássicas e estatísticas? 2.1 As Características Gerais da Visão
[115-117] Algumas características gerais da nossa posição indicam-se imediatamente. Em primeiro lugar, tratar-se-á a inteligibilidade imanente no universo da
nossa experiência. Será, contudo, uma conclusão a partir da estrutura do método
empírico, e pelo cânone da relevância do método empírico confina-se à
determinação desta inteligibilidade imanente. Por isso, nada diremos neste capítulo
sobre o fim ou o propósito deste universo, sobre os materiais nos quais se
moldou, sobre os agentes principais ou instrumentais por ele responsáveis. Os
nossos esforços limitam-se à determinação do plano imanente ou da ordem
característica de um universo em que prevalecem tanto as leis clássicas como
as estatísticas. Em segundo lugar, a nossa descrição deste plano ou ordem é genérico. Uma
descrição específica baseia-se no conteúdo das ciências empíricas. Teria
de apelar, não às leis clássicas e estatísticas em geral, mas às leis
rigorosas que são empiricamente estabelecidas. A nossa descrição, por outro
lado, basear-se-á não nos resultados das investigações científicas, mas única
e exclusivamente na estrutura dinâmica da inteligência investigadora. Deste
modo, se no curso da exposição invocam-se algumas conclusões científicas, as
suas funções não são determinantes, mas meramente ilustrativas. Tal como o
determinismo mecanicista tem sido uma visão do mundo independente do conteúdo
preciso das leis clássicas, também o nosso objectivo é uma estrutura genérica
semelhante ao que é compatível, não só com as leis clássicas e estatísticas
actuais, mas também com as suas futuras revisões. Em terceiro lugar, o nosso reconhecimento do plano ou da ordem deste
universo é relativamente invariante. O conteúdo das ciências naturais é uma
variável. Houve a ciência do Renascimento. Houve a ciência do Iluminismo. Há
a ciência dos nossos dias. Haverá sucessivos estados de desenvolvimento científico
no futuro. Mas, entrelaçar estas diversas manifestações do pensamento científico,
e gerar cada uma apenas para originar a sucessiva revisão e transformação,
emerge a invariante subjacente, basicamente designável de método científico
e, mais precisamente, creio eu, estrutura dinâmica da inteligência
investigadora. Como se viu, é o desejo de entender que origina,
simultaneamente, a estrutura heurística do procedimento clássico e a estrutura
complementar da investigação estatística; e é a natureza da intelecção que
reconhece os seis cânones de selecção, das operações, de relevância, da
parcimónia, explicação completa, e dos resíduos estatísticos, de acordo com
os quais as estruturas heurísticas geram a série de teorias e sistemas científicos.
Assim sendo, a nossa premissa consiste, não nos conteúdos variáveis das ciências,
mas nas formas invariantes que governam a investigação científica. Segue-se,
deste modo, que o plano do universo para o qual apontamos goza da invariância
da premissa que invocámos. Contudo, disse que a nossa descrição é, de certa forma, invariante, e a
razão desta restrição é bastante simples. O nosso apelo não é à estrutura
da mente humana em si mesma, mas ao nosso reconhecimento dessa estrutura. Tal
como as ciências naturais estão sujeitas a revisão, também esperamos que o
nosso reconhecimento se sujeite a rearranjos, a modificações e a
melhoramentos. Uma vez que estas mudanças afectam as premissas deste argumento,
também afectam as conclusões. Assim sendo, a visão do mundo que se apresenta
é invariante, porque é independente das mudanças do conteúdo das ciências
naturais; mas é, no entanto, apenas relativamente invariante, visto não ser
independente das revisões da nossa análise do método empírico. Em quarto lugar, a nossa descrição de uma visão do mundo dentro dos
limites da ciência empírica não fica completa neste capítulo. Ao tratar-se o
cânone da parcimónia adiámos a questão da validade da noção de coisa. Num
capítulo posterior, esta questão ter-se-á que discutir, e então
acrescentamos um complemento ao presente reconhecimento. Em quinto lugar, a nossa descrição não pretende ser dedutiva. Talvez pudéssemos
argumentar de forma estritamente dedutiva, a partir da estrutura complementar do
conhecer para a correspondente complementaridade do conhecido. Mas se este
processo é possível, requer uma elaboração excessiva para os objectivos
presentes. Em concordância, o nosso apelo é à intelecção. Iniciamos pela
problemática de demonstrar, como as leis clássicas e estatísticas, juntam-se
numa inteligibilidade unificada proporcional ao universo da nossa experiência.
Face a este problema, estabelecemos a nossa pista, nomeadamente, o esquema de
recorrência. Por um lado, o mundo da nossa experiência está repleto de
continuidades, de oscilações, de ritmos, de rotinas, de alternâncias, de
circulações, e de regularidades. Por outro lado, o esquema de recorrência não
se enquadra apenas com este facto generalizado, mas também relaciona-se
intimamente com as leis clássicas e estatísticas. A noção de esquema emerge
da própria formulação dos cânones do método empírico. Abstractamente, o
esquema é em si mesmo uma combinação de leis clássicas. Todavia, e de forma
concreta, os esquemas começam, continuam, e deixam de funcionar de acordo com
as probabilidades estatísticas. Esta é a nossa pista, o nosso reconhecimento
insipiente. Para o desenvolver consideramos (1) a noção de uma série
condicionada de esquemas de recorrência, (2) a probabilidade de um esquema único,
(3) a probabilidade emergente de uma série de esquemas, e (4) as características
consequentes de uma ordem do mundo. 2.2 Os Esquemas de Recorrência
[118-120] A noção de esquema de recorrência surgiu quando denotou-se que as séries
divergentes de condições positivas para um evento podiam-se enrolar num círculo.
Neste caso, uma série de eventos A, B, C, . . . relacionam-se de forma a que o
preenchimento das condições para cada um seja a ocorrência dos outros.
Esquematicamente, o esquema representa-se pela série de condicionais: Se A
ocorre, B irá ocorrer; se B ocorre, C irá ocorrer; se C ocorre, ... A irá
ocorrer. Tal arranjo circular implica um qualquer número de termos, a
possibilidade de caminhos alternativos, e, geralmente, qualquer grau de
complexidade. Há duas instâncias de uma complexidade maior dignas de nota. Por um lado,
um esquema consiste num conjunto de arranjos quase, por completo, circulares,
dos quais nenhum funciona sozinho, mas todos juntos funcionam numa combinação
interdependente. Por outro lado, os esquemas complementam-se por círculos
defensivos, daí que se algum evento F tende a perturbar o esquema, há uma
outra sequência de condições do tipo "Se F ocorre, então G ocorre; se G
ocorre, então H ocorre; se H ocorre, então F é eliminado." Como ilustração dos esquemas de recorrência, o leitor pense no sistema planetário, na circulação da água sobre a superfície da Terra, no ciclo do azoto familiar aos biólogos, nas rotinas da vida animal, nos ritmos económicos repetitivos da produção e troca. Como ilustração de esquemas com círculos defensivos, fale-se em equilíbrios generalizados. Tal como uma reacção em cadeia é uma série cumulativa de mudanças que termina numa diferença explosiva, um equilíbrio generalizado é uma combinação de círculos defensivos que qualquer mudança, dentro de determinados limites, é contrariada por mudanças opostas que restauram a situação inicial. Assim sendo, a saúde de uma planta ou animal é um equilíbrio generalizado; também, a harmonia das várias formas de vida vegetal e animal num ambiente é um equilíbrio generalizado;
igualmente, o processo económico concebeu-se, pelos antigos economistas, como
um equilíbrio generalizado. No entanto, tratamos, não de esquemas únicos, mas de uma série
condicionada de esquemas. Digamos que os esquemas P, Q R, ... formam uma série
condicionada, caso todos os membros anteriores funcionem para que qualquer
membro posterior se torne numa possibilidade concreta. Deste modo, o esquema P
funciona sem que nem Q nem R existam; o esquema Q funciona embora R ainda não
exista; mas Q não funciona a não ser que P já esteja a funcionar; e R não
funciona a não ser que Q já esteja a funcionar. Deste modo, como ilustração simples, falemos dos esquemas de dieta dos
animais. Todos os animais carnívoros não vivem à custa de outros animais carnívoros.
Por isso, o esquema de dieta carnívoro pressupõe um outro esquema de dieta
herbívoro, mas, inversamente, existem animais herbívoros sem a existência de
outros animais carnívoros. Também as plantas não vivem, geralmente, à custa
de animais; o esquema da sua alimentação envolve processos químicos; mas este
esquema funciona sem a existência de animais. Finalmente, os ciclos químicos não
são independentes das leis físicas, mas, inversamente, as leis da física são
combinadas em esquemas de recorrência independentes dos processos químicos. Esta é, numa breve definição, a noção da série condicionada dos
esquemas de recorrência condicionados. Procuremos um ligeiro aumento na precisão
acentuando a distinção entre (1) a seriação possível, (2) a seriação provável,
e (3) a seriação real. A seriação real é única. Consiste nos esquemas que realmente estiveram,
estão, ou estarão a funcionar no nosso universo em conjunto com especificações
precisas dos seus lugares, das suas durações e das relações entre si. A seriação provável difere da real. A real diverge de modo não sistemático
das expectativas de probabilidade. A real é a factual, mas a provável é
ideal. Assim sendo, enquanto a seriação real tem a singularidade da matéria
de facto, a seriação provável exibe ramificações cumulativas de
alternativas prováveis. Em concordância, a seriação provável não é uma série
única mas uma pluralidade de séries. Para cada estado do processo do mundo
existe um conjunto de estágios seguintes prováveis, dos quais alguns são mais
prováveis que outros. A seriação real inclui apenas os estados que ocorrem. A
seriação provável inclui todos os que pudessem ocorrer sem divergência
sistemática das probabilidades. A seriação possível é ainda mais remota da realidade. Inclui todos os
esquemas de recorrência imagináveis a partir das leis clássicas do nosso
universo. Ordena-os numa série condicionada que se ramifica não só ao longo
das vias de alternativas prováveis, mas, igualmente, ao longo das vias de mera
possibilidade ou probabilidade insignificante. Tanto é relevante para o nosso
universo como para qualquer outro sujeito às mesmas leis clássicas,
independentemente dos seus números iniciais, diversidades e distribuição de
elementos. Das três seriações, no entanto, a possível exibe a maior complexidade e
variedade. Depende, exclusivamente, da consideração das leis clássicas. Sofre
da indeterminação do abstracto, daí que exibe o processo de qualquer universo
com leis semelhantes às nossas. A seriação provável depende não só das
leis estatísticas como, também, das leis clássicas, e ainda das leis estatísticas
que têm origem na situação inicial, ou básica, do nosso mundo. Mesmo não
sendo tão abstracta como a seriação possível, continua a ser ideal. Para
cada momento da história mundial designa o seu curso futuro com maior
probabilidade. Mas também designa outras séries de cursos menos prováveis, e
reconhece que qualquer uma destas pode ser um facto. Finalmente, a seriação
real é única, mas adquire a sua singularidade ao ultrapassar o domínio de
todas as leis, clássicas e estatísticas., e penetrando no domínio da observação,
no qual apenas se determinam as divergências não sistemáticas da
probabilidade. 2.3 A probabilidade dos Esquemas
[120-121] O nosso esboço, de noção de série condicionada de esquemas de recorrência,
admite que se atribui uma probabilidade à emergência e sobrevivência de um
esquema de recorrência. No entanto, a nossa descrição de probabilidade
assenta em termos da frequência de eventos e não de esquemas. Têm os esquemas
probabilidade? Se têm, haverá uma probabilidade distinta para a sua emergência
e outra para a sua sobrevivência? Estas questões têm que se abordar. Considere um conjunto de eventos dos tipos A, B, C, ... e uma situação no
mundo em que possuem respectivamente as probabilidades p, q, r, . . .Então,
pela regra geral da teoria da probabilidade, a probabilidade da ocorrência de
todos os eventos é o produto pqr ... das suas respectivas probabilidades. Acrescentemos agora uma outra condição. Suponhamos que o conjunto de
eventos A, B, C, ... satisfaz o esquema de recorrência condicionado, dito K,
numa situação no mundo em que o esquema K não funciona, mas em virtude do
preenchimento das condições anteriores poderia começar a funcionar. Deste
modo, se A ocorresse, B ocorreria. Se B ocorresse, C ocorreria. Se C ocorresse,
... A ocorreria. Em resumo, se algum dos eventos do conjunto ocorresse, então,
tudo o resto ao ser igual, seguir-se-ia o resto dos eventos. Neste caso assumimos que as probabilidades dos eventos únicos são
respectivamente as mesmas de antes, mas já não admitimos que a probabilidade
da combinação de todos os eventos do conjunto seja a mesma. Como facilmente se
pode constatar, a possibilidade concreta de um esquema começar a funcionar
passa da probabilidade da combinação pelo produto pqr. . . para a soma p + q +
r +. . . pois em virtude do esquema, é agora verdade que A e B e C e ...
ocorrem se algum dos A ou B ou C ou ... ocorrer; pela regra geral da teoria da
probabilidade, a probabilidade de um conjunto de alternativas é igual à soma
das probabilidades das alternativas. A soma de um conjunto de fracções p, q, r, ... é sempre maior que o
produto das mesmas fracções. Mas a probabilidade é em si mesma uma fracção.
Segue-se que, quando as condições anteriores forem cumpridas para o
funcionamento do esquema de recorrência, a probabilidade da combinação dos
eventos constitutivos do esquema passa de um produto de fracções a uma soma de
fracções. Existe, deste modo, a probabilidade de emergência de um esquema de recorrência.
Essa probabilidade consiste na soma das respectivas probabilidades de todos os
eventos incluídos no esquema, e surge desde que se tenham satisfeito as condições
anteriores para o funcionamento do esquema. Existe também a probabilidade de sobrevivência dos esquemas que começam a
funcionar. Visto que, em si mesmo, o esquema assegura a sua perpetuação. As
condições positivas para a ocorrência dos eventos componentes residem na
ocorrência desses eventos. Até as condições negativas, dentro de certos
limites, produzem-se pelo desenvolvimento de círculos defensivos. Não
obstante, a perpetuação de um esquema não é necessária. Não só as leis clássicas
estão sujeitas à condição "tudo o resto sendo igual", como também
os esquemas constituídos por combinações de leis clássicas; se o resto
continua igual, ou não, é uma questão que apenas admite uma resposta em
termos de leis estatísticas. Assim sendo, a probabilidade de sobrevivência de
um esquema de recorrência é a probabilidade de não ocorrência de nenhum dos
eventos que perturbam o esquema. 2.4 A Probabilidade Emergente
[121-124] Formulou-se a noção de série condicionada de esquemas de recorrência, e,
também, o sentido geral no qual se fala da probabilidade de emergência e de
sobrevivência de esquemas isolados. Destas considerações vem agora à luz a
noção de probabilidade emergente. Já que o funcionamento real dos esquemas
anteriores na série preenche as condições para a possibilidade de
funcionamento dos esquemas posteriores. À medida que estas condições são
preenchidas, a probabilidade da combinação dos eventos constituintes num
esquema salta do produto de um conjunto de fracções para a soma destas fracções.
Mas o que é provável, mais cedo ou mais tarde acontece. Quando acontece, a
probabilidade de emergência substitui-se pela probabilidade de sobrevivência;
e desde que o esquema sobreviva, preenche, por seu turno, as condições para a
possibilidade de esquemas posteriores na série. Essa é a noção geral de probabilidade emergente. Resulta da combinação
de séries condicionadas de esquemas de recorrência com as suas respectivas
probabilidades de emergência e sobrevivência. Embora seja, em si mesma,
extremamente desinteressante, possui notáveis potencialidades de explicação.
Estas são agora esboçadas, e por isso dedicamo-nos a breves considerações
sobre a significância da probabilidade emergente da distribuição espacial, números
absolutos, intervalos de tempo longos, selecção, estabilidade, e
desenvolvimento. A noção de série condicionada de esquemas envolve concentrações
espaciais. Uma vez que cada conjunto posterior de esquemas é possível nos
lugares em que os esquemas anteriores já funcionam. Assim sendo,, os esquemas
mais elementares, que são os primeiros na série, ocorrem em qualquer lugar da
distribuição inicial dos materiais. Mas, a segunda leva só ocorre onde a
primeira ocorreu de facto, a terceira onde a segunda ocorreu de facto, e assim
sucessivamente. Além disso, uma vez que a realização dos esquemas está de
acordo com as probabilidades, que são baixas, não se espera que actuem todas
as possibilidades. Deste modo, os esquemas elementares não são tão frequentes
como, efectivamente, deviam ser, a fim de estreitar a base possível para
esquemas em segunda volta. Estes não são tão frequentes como podiam ser,
apertando mais uma vez as bases para a terceira volta, e assim por diante.
Consequentemente, por muito espalhada que seja a realização dos esquemas
elementares, há uma sucessão de constrições dos volumes no espaço, dos
quais surgem os esquemas posteriores. De forma semelhante, os pontos de maior e
menor constrição ocorrem sempre que as probabilidades de emergência do
conjunto seguinte de esquemas sejam respectivamente a mais baixa e a mais alta.
Finalmente, uma vez que os últimos esquemas de série possuem maior número de
condições para preencher, a sua ocorrência limita-se a um número de locais
relativamente pequeno. Em segundo lugar, há a significância dos números absolutos. Os números
altos compensam baixas probabilidades. O que ocorre uma vez num milhão de ocasiões
espera-se um milhão de vezes num milhão de milhões de ocasiões. Deste modo,
a probabilidade mínima pertence aos últimos esquemas na série, visto que a
sua emergência pressupõe a emergência de todos os esquemas anteriores. Daí
que quanto mais baixa for a probabilidade do último esquema da série
condicionada, maior será o número absoluto inicial com que os esquemas se
podem realizar. Em resumo, o tamanho de um universo é inversamente proporcional
à probabilidade dos seus esquemas definitivos de recorrência. Em terceiro lugar, existe a significância dos longos intervalos de tempo.
Por muito grande que seja o universo, e por muito que esteja espraiado o
funcionamento dos esquemas elementares, há uma concentração crescente dos
volumes espaciais nos quais os esquemas posteriores se realizam. O benefício
inicial dos grandes números perde-se, mais cedo ou mais tarde, devido ao
sucessivo constrangimento das bases para os desenvolvimentos posteriores. Mas,
nesta conjuntura, os longos intervalos de tempo são significativos. Assim como
um milhão de milhões de possibilidades simultâneas proporciona um milhão de
realizações prováveis cuja probabilidade é de um num milhão, também um
milhão de milhões de possibilidades sucessivas proporciona um milhão de
realizações prováveis sob a mesma previsão. Em quarto lugar, existe uma significância selectiva ligada à distinção
entre probabilidades de emergência e probabilidades de sobrevivência. Se ambas
são baixas, a ocorrência do esquema é, simultaneamente, rara e efémera. Se
ambas são altas, as ocorrências são comuns e constantes. Se a probabilidade
da emergência é fraca e a sua sobrevivência é alta, espera-se que o esquema
seja escasso mas constante. Finalmente, no caso oposto, o esquema é comum mas
efémero. Em quinto lugar, a selectividade tem a sua significância estabilidade. O
funcionamento dos esquemas posteriores depende do funcionamento dos esquemas
anteriores, para que um colapso anterior origine um colapso posterior. A linha
da estabilidade máxima é a dos esquemas comuns e constantes, enquanto que a
linha da estabilidade mínima é dos esquemas escassos e efémeros. Em sexto lugar, não menos relevante que a estabilidade, a possibilidade do
desenvolvimento deve-se considerar. Infelizmente, ambas chocam-se. Esquemas com
elevadas probabilidades de sobrevivência tendem a aprisionar os materiais nas
suas próprias rotinas. Eles fornecem uma base muito firme para os esquemas
posteriores, mas também previnem o aparecimento dos esquemas posteriores. A
solução para este problema é, no início, condicionar os esquemas a obter uma
elevada probabilidade de emergir, mas, inversamente, a retirar probabilidade de
sobrevivência. Eles formam uma população flutuante em que os esquemas
posteriores dependem sucessivamente. Porque a probabilidade de sobrevivência é
fraca, renunciam imediatamente aos materiais para dar a oportunidade de emergir
aos esquemas posteriores. Se a probabilidade de sobrevivência for elevada,
avaliam, de forma imediata, o preenchimento das condições – para que os
esquemas posteriores funcionem. Escusado será dizer que as considerações anteriores são extremamente
rudimentares. Limitam-se à probabilidade emergente de qualquer série
condicionada de esquemas de recorrência. Não se dedicam ao desenvolvimento
desta noção na direcção da sua aplicação a condições de emergência e
sobrevivência de modos de vida. No entanto, embora fosse desejável uma exposição
completa, não tem lugar num reconhecimento meramente genérico da ordem do
mundo. A premissa de um reconhecimento genérico não é o conteúdo das ciências
naturais, mas a possibilidade e validade das suas condições e método. O tópico
que pretendemos demonstrar, dentro dos limites da nossa estreita premissa, é
que a noção de probabilidade emergente é explicativa. A investigação
inteligente procura o discernimento. Mas as leis clássicas, por si só, não
fornecem discernimento sobre números, distribuições, concentrações,
intervalos de tempo, selectividade, estabilidade incerta, ou desenvolvimento.
Pelo contrário, abstraem-se da instância, local, tempo, e das condições
concretas do funcionamento real. Uma vez mais, as leis estatísticas, como meros
agregados, afirmam em vários casos a frequência ideal da ocorrência de
eventos. Não têm a pretensão de explicar porque há tantos tipos de eventos,
ou porque cada tipo tem a frequência que se lhe atribui. Para atingir uma
explicação deste nível, tem que se efectuar uma síntese concreta das leis clássicas
numa série condicionada de esquemas de recorrência, para estabelecer que estes
esquemas, como combinações de eventos, adquirem, em primeiro lugar, a
probabilidade de emergência e, de seguida, a probabilidade de sobrevivência
através da realização da série condicionada, para, finalmente, compreender
que, se esta série de esquemas realiza-se de acordo com as probabilidades, está
então disponível um princípio geral que promete respostas às questões
acerca das causas dos números e distribuições, concentrações e intervalos
de tempo, selectividade e estabilidade incerta, desenvolvimento e quebras.
Desvendar estas respostas pertence ao domínio das ciências naturais.
Compreender que a probabilidade emergente é uma ideia explicativa é, também,
perceber o que se disse quando o nosso objectivo caracterizou-se como um
reconhecimento genérico, relativamente invariante, e incompleto da
inteligibilidade imanente, da ordem, e do plano do universo da nossa experiência. 2.5 As Consequências da Probabilidade Emergente
[125-28] Resta a tarefa de calcular as propriedades genéricas de um processo do
mundo em que a ordem ou plano constitui-se pela probabilidade emergente. Fá-lo-emos
em dois passos principais. Em primeiro lugar, iremos sumariar o essencial da noção
de probabilidade emergente. Em segundo lugar, iremos enumerar as consequências
da verificação desta noção no processo do mundo. O essencial da noção de probabilidade emergente indica-se na seguinte série
de asserções. (1) Um evento é o que há a conhecer respondendo positivamente a questões como, Ocorreu? Está a ocorrer? Irá ocorrer? (2) O processo do mundo é uma pluralidade espaço-temporal de eventos. Por
outras palavras, há muitos eventos e cada um tem o seu espaço e o seu tempo. (3) Os eventos são de tipos diferentes. Nem todos os eventos são de uma
nova espécie, senão não existiriam leis clássicas nem leis estatísticas. (4) Os eventos são recorrentes. Existem muitos eventos do mesmo tipo e nem
todos ocorrem simultaneamente. (5) Existem eventos regularmente recorrentes. Esta regularidade
compreende-se à medida que as combinações de leis clássicas originam
esquemas de recorrência. Esquemas são relações circulares entre eventos de
diferentes tipos, daí que se os eventos ocorrem uma vez em virtude das relações
circulares, tudo o resto mantendo-se igual, continuam a ocorrer de forma
indefinida. (6) Os esquemas combinam-se numa série condicionada, daí que os anteriores
funcionem sem a emergência dos posteriores, mas os posteriores não emergem ou
funcionam sem que os anteriores estejam já em funcionamento. (7) As combinações de eventos possuem uma probabilidade, e esta
probabilidade salta, em primeiro lugar, quando um esquema se torna possível em
virtude do preenchimento das suas condições anteriores, e, em segundo lugar,
quando o esquema começa, de facto, a funcionar. (8) As frequências reais dos eventos de cada tipo em cada local e em cada
altura não divergem sistematicamente das suas probabilidades. As frequências
reais divergem, no entanto, não sistematicamente das probabilidades, e esta
divergência não sistemática é o acaso. Assim sendo, probabilidade e acaso são
distintas e não se devem confundir. (9) A probabilidade emergente é a sucessiva realização de acordo com
planos de probabilidade sucessivos de uma série condicionada de esquemas de
recorrência. As propriedades consequentes do processo do mundo cujo designo é a
probabilidade emergente são as seguintes: (1) Há uma sucessão de situações no mundo. Cada uma caracteriza-se (a)
pelos esquemas de recorrência já em funcionamento, (b) por esquemas
posteriores que se tornam neste momento concretamente possíveis, e (c) pelo
plano actual de probabilidades de sobrevivência dos esquemas existentes e de
probabilidades de emergência dos esquemas concretamente possíveis. (2) O processo do mundo é aberto. É uma sucessão de realizações prováveis
de possibilidades. Deste modo, não percorre os carris de ferro montados pelos
deterministas, nem, por outro lado, é um pântano não inteligível de eventos
meramente ao acaso. (3) O processo do mundo é progressivamente mais sistemático. Visto ser a
sucessiva realização de uma série condicionada de esquemas de recorrência, e
quanto mais a série for realizada, maior a sistematização a que os eventos se
sujeitam. (4) Assegura-se o aumento progressivo do carácter sistemático do processo
do mundo. Por mais baixa que seja a probabilidade de realização dos esquemas
mais desenvolvidos e mais condicionados, a sua emergência assegura-se pelo
aumento suficiente dos números absolutos e pelo prolongamento suficiente dos
intervalos de tempo. As frequências reais não divergem sistematicamente das
probabilidades; mas quanto maiores os números e mais longos os intervalos de
tempo, mais evidente é a necessidade de uma intervenção sistemática para
impedir o provável de acontecer. (5) O significado da situação inicial ou de base do mundo limita-se às
possibilidades que contém e às probabilidades que atribui às suas
possibilidades. A situação inicial do mundo refere-se à primeira situação
no tempo; a situação de base do mundo refere-se ao prolongamento parcial das
condições iniciais, assim como surge, por exemplo, em algumas hipóteses
contemporâneas de criação contínua. Em qualquer caso, o que é significativo reside nas possibilidades e nas
suas probabilidades pois, em todos os seus estados, o processamento do mundo
reside na realização provável das possibilidades. Enquanto que o determinista
deseja a informação total, exacta até à décima casa decimal, na sua situação
inicial ou básica, o defensor da probabilidade emergente satisfaz-se com
qualquer situação inicial na qual os esquemas mais elementares possam e
provavelmente venham a surgir em número suficiente para sustentar a estrutura
subsequente. (6) O processo do mundo admite muita diferenciação. Abarca a totalidade
das possibilidades definidas pelas leis clássicas. Realiza estas possibilidades
de acordo com sucessivos planos de probabilidade. E uma vez dados os
quantitativos e o tempo suficiente, mesmo as mais fracas, e até as mais
ligeiras probabilidades ficam asseguradas. (7) O processo do mundo admite colapsos. Qualquer esquema possui a
probabilidade de sobrevivência, daí que para cada esquema haja uma certa
probabilidade de falhanço; uma vez que os esquemas anteriores condicionam os
posteriores, o colapso dos primeiros leva ao colapso dos segundos. (8) O processo do mundo admite impasses. Esquemas com alta probabilidade de
sobrevivência possuem alguma probabilidade de emergência. A partir do momento
em que emergem, tendem a ligar às suas rotinas os materiais para o surgimento
de esquemas posteriores, e assim bloquear o caminho para o desenvolvimento
completo. (9) Quanto mais tarde um esquema surge na série condicionada, mais apertada
é a sua distribuição. A realização real é menos frequente do que a sua
possibilidade concreta; e cada conjunto posterior de esquemas torna-se possível
se os esquemas anteriores e condicionantes estiverem em funcionamento. (10) Quanto mais estreita a base para a emergência de cada conjunto de
esquemas posteriores, maior a necessidade de invocar longos intervalos de tempo.
Neste caso, é exclusiva a alternativa de largos números. (11) Quanto maiores as probabilidades de impasses e de colapsos, maiores são
os quantitativos absolutos necessários para assegurar toda a série de
esquemas. Neste caso, não funciona o meio dos longos intervalos de tempo. Os
impasses com as suas rotinas inertes duram períodos incrivelmente longos, e ao
colapsar resultam num outro impasse. Mais uma vez, a situação que levou a um
desenvolvimento, para de seguida sofrer um colapso, repete este processo com
mais frequência num longo intervalo de tempo. Por outro lado, o efeito dos
quantitativos iniciais elevados assegura que, pelo menos numa situação, a série
desenrolar-se-á completamente. (12) As propriedades antecedentes do processo do mundo são genéricas.
Assumem que existem leis do tipo clássico, mas não assumem qualquer conteúdo
determinado de qualquer lei clássica particular. Assumem que as leis clássicas
combinam-se em relações circulares de esquemas , mas não arriscam analisar a
estrutura de qualquer esquema. Assumem que existem leis estatísticas, mas não
há qualquer condição acerca do conteúdo determinado de alguma lei estatística. Além disso, estas propriedades são relativamente invariantes. Assentam na
pressuposição, necessária ao cientista, que há leis clássicas e estatísticas
a determinarem-se. Mas, de forma alguma, julgam à partida a determinação
destas leis, nem a maneira pela qual estas combinam-se para originar esquemas de
recorrência e as suas sucessivas probabilidades. Daí que as propriedades
antecedentes do processamento do mundo não podem se perturbem por qualquer
quantidade de trabalho científico na determinação das leis clássicas e estatísticas. Mais uma vez, estas propriedades são explicativas do processo do mundo.
Revelam uma ordem, um plano, uma inteligibilidade. Reconhecem de forma genérica
números e intervalos de tempo, distribuições e concentrações, impasses e
colapsos, enorme diferenciação, uma sistematização progressivamente maior,
estabilidade sem necessidade, segurança sem determinismo, desenvolvimento sem
acaso. Finalmente, a inteligibilidade oferecida pela explicação é imanente ao
processo do mundo. Exibe um plano interior do processo do mundo como uma
probabilidade emergente, e deste plano conclui para as extraordinárias características
genéricas do mesmo processo. Assim sendo, uma vez que o método empírico
procura alcançar uma inteligibilidade imanente deste tipo, a probabilidade
emergente é uma visão dentro dos limites do método empírico. Como começámos
por convidar o leitor a tentar alcançar a inteligibilidade imanente na imagem
de uma roda de carroça, convidamo-lo, neste momento, a renovar esse
procedimento. A única diferença é que agora, à imagem da roda de carroça,
deve-se substituir as principais características do universo da nossa experiência. 3 A Clarificação pelo Contraste
[128-39] Há uma clarificação das ideias através do contraste com os seus opostos.
Como já debatemos de que forma a aceitação das leis clássicas e das estatísticas
conduz a uma visão do mundo como probabilidade emergente, temos agora de
analisar como diferentes posições metodológicas resultam em diferentes visões
do mundo. 3.1 A Visão do Mundo de Aristóteles
[129-30] Aristóteles reconheceu as leis naturais e os resíduos estatísticos. Mas
as suas leis naturais aglomeravam-se numa confusão primitiva, não só de leis
clássicas e esquemas de recorrência, como, também, de um elemento ou aspecto
das leis estatísticas. A sua distinção restringia-se entre o necessário e o
contingente. O necessário é o que acontece sempre, como o movimento das
estrelas. O contingente é o que usualmente acontece; ou seja, geralmente os
corpos pesados caem para a terra, mas por vezes são impelidos para cima e por
isso não caem. Aristóteles não conseguiu alcançar as leis abstractas da natureza do tipo
clássico, como, também, explicitamente repudiou a possibilidade de uma teoria
da probabilidade. Para Aristóteles, todos os eventos terrestres são
contingentes. Sem dúvida, o efeito é consequência da causa; mas, só se
alguma outra causa não intervier; e esta intervenção é mera coincidência.
É verdade que qualquer coincidência origina-se em coincidências anteriores, e
que destas coincidências anteriores regride-se até coincidências ainda mais
anteriores; mas nunca se consegue sair da categoria do meramente coincidente, e
desta categoria nada se alcança por nenhuma ciência. Embora Aristóteles
reconheça os resíduos estatísticos e os padrões concretos das séries
divergentes de condições, não tem qualquer teoria de probabilidade para os
submeter ao campo do conhecimento científico. Contudo, Aristóteles não tencionava deixar que os processos terrestres se
atolassem num pântano de interferências coincidentes. Para exorcizar esta
entropia, defendeu a influência dos corpos celestes nas actividades terrestres
a partir das variações sazonais. Como o sol e a lua, os planetas e as
estrelas, operavam necessariamente, porque operavam de posições sucessivamente
diferentes, forneciam fundamento e causa suficientes para explicar a
periodicidade e perpetuidade da mudança terrestre. Desta forma surge a sua noção
de céu eterno, terra eterna, e eterna recorrência cíclica. A probabilidade emergente difere da visão do mundo de Aristóteles, porque
assenta numa noção diferente de ciência e de lei. Os movimentos dos céus,
alegadamente necessários, são apenas esquemas de recorrência que surgem através
do desdobramento das probabilidades e sobrevive de acordo com as probabilidades.
As regularidades do processo terrestre são essencialmente semelhantes, embora
aqui os esquemas sejam mais complexos e as probabilidades mais baixas.
Finalmente, a eterna recorrência cíclica desaparece, e em seu lugar vem a
realização sucessiva, de acordo com planos de probabilidades sucessivas, de
uma série condicionada de esquemas de recorrência cada vez mais complexos. Não
é a necessidade celestial que assegura o sucesso do processamento terrestre, é
a probabilidade emergente que proporciona o plano de todo o processo; e este
plano não é uma eterna recorrência cíclica, é a realização através da
probabilidade de uma série condicionada de esquemas cada vez mais
desenvolvidos. 3.2 A Visão do Mundo de Galileu
[130-32] Galileu descobriu a lei da queda dos graves, mas não conseguiu reconhecer a
respectiva abstracção. Compreendeu, de forma correcta, que a explicação está
para além da descrição, que as relações das coisas com os nossos sentidos têm
que se transcender, que as relações das coisas entre si têm que se alcançar,
e que a geometrização da natureza é a ferramenta chave para a realização
desta tarefa. No entanto, Galileu não apresenta as suas descobertas metodológicas
nestes termos. Em vez de falar das relações das coisas com os nossos sentidos,
fala das qualidades secundárias das coisas meramente aparentes. Como em vez de
falar das relações das coisas entre si, fala das suas reais e objectivas
qualidades primárias, e concebe estas como dimensões matemáticas da matéria
em movimento. A metodologia de Galileu está cheia de suposições filosóficas acerca da
realidade e da objectividade e, infelizmente, tais suposições não são muito
felizes. A sua influência é evidente em Descartes. As suas ambiguidades
aparecem em Hobbes e Locke, Berkeley e Hume. A sua inadequação torna-se clara
em Kant, onde os corpos reais e objectivos do pensamento galiliano demonstram não
ser mais que um mundo de fenómenos. Mas, por outro lado, o nosso procedimento prescinde severamente de questões
filosóficas acerca da realidade e da objectividade. Na devida altura teremos de
as discutir. Contudo, a nossa atenção presente centra-se no facto das leis da
natureza de Galileu não se conceberem na abstracção dos elementos sensíveis,
ou pelo menos imagináveis e, consequentemente, as leis de Galileu pertencem, não
ao campo das nossas leis clássicas abstractas, mas antes ao dos esquemas de
recorrência, nos quais as leis abstractas e os elementos imagináveis
combinam-se. Do carácter concreto da concepção das leis naturais segue-se uma dupla
consequência. Por um lado, surge a hostilidade e a incompreensão contra as
leis estatísticas. Por outro lado, resulta uma visão mecanicista do universo.
No abstracto, as leis clássicas possuem universalidade e necessidade. O adepto
de Galileu reconhece esta universalidade e necessidade, mas não reconhece a sua
abstracção. Para ele, as leis ligam-se, de forma imediata, a partículas
imagináveis ou a um éter imaginável, ou a ambos. Para ele, são já
concretas, daí que não haja necessidade de mais determinações para alcançar
a qualidade de ser concreto. Para ele, não existem as determinações
adicionais, que não se relacionariam sistematicamente entre si, simplesmente.
Assim sendo, uma vez que ele não tem dúvidas acerca da existência das leis clássicas,
não deixa de encarar as leis estatísticas como simples formulações da nossa
ignorância. Existe um agregado vasto de elementos, discretos ou contínuos, mas
imagináveis; estes sujeitam-se a leis universais e necessárias; o papel do
cientista consiste na árdua tarefa de determinar estas leis e assim prever o
que não pode deixar de acontecer. Daí que, dentro deste contexto, a negação das leis estatísticas implica
o conceito de mecanismo. A máquina é um conjunto de partes imagináveis, em
que cada uma possui determinadas relações sistemáticas com todas as outras.
De forma semelhante, o universo implícito na metodologia de Galileu é um
agregado de partes imagináveis, e cada uma é sistematicamente relacionada com
todas as outras. A única diferença é que, além da máquina, existem outros
elementos imagináveis que interferem com a sua operação, além do universo de
elementos imagináveis, que intervenções podem surgir? O mecanismo torna-se
assim determinismo. Até agora, esta visão de Galileu domina os círculos científicos.
Sobreviveu facilmente, às implicações bastante veladas do darwinismo. Mas
parece que sofreu uma ferida mutilante com as pretensões notórias da mecânica
quântica. O nosso debate, no entanto, move-se num terreno diferente. Apela ao
darwinismo e à mecânica quântica apenas como ilustrações da inteligência
científica. As suas premissas apropriadas encontram-se na estrutura dinâmica
da investigação empírica e nos cânones que governam o seu desenrolar. Neste
campo, evidenciámos que a abstracção não é empobrecedora mas sim
enriquecedora, que as leis clássicas são abstractas no sentido da abstracção
enriquecedora, que a unificação sistemática das leis clássicas não implica
a possibilidade de síntese imaginativa, que a concentração das relações
sistemáticas no campo do abstracto deixa as outras determinações necessitadas
de aplicações concretas não sistematicamente relacionadas entre si. Daí que
as leis clássicas e estatísticas, em vez de serem opostas são complementares.
Em consequência, as regularidades do nosso universo resultam, não unicamente
das leis clássicas, mas da combinação destas leis com constelações de
circunstâncias concretas. Finalmente, estes esquemas de recorrência - tal como
as máquinas feitas pelo homem - emergem e funcionam, sobrevivem e desaparecem,
de acordo com planos de probabilidades sucessivos para a realização de uma série
condicionada de esquemas. 3.3 A Visão do Mundo Darwiniana
[132-34] Há quem date a aurora da inteligência humana com a publicação da Origem
das Espécies, de Darwin, em 1859. De facto, embora o trabalho não contenha
nenhuma afirmação sistemática sobre fundamentos metodológicos, apresenta um
exemplo extraordinário do emprego da probabilidade como princípio de explicação.
Em primeiro lugar, o Darwinismo propõe-se explicar. Oferece-se para afirmar
porque as espécies diferem, porque encontram-se segundo uma distribuição espaço-temporal,
porque os quantitativos de cada espécie aumentam, mantêm-se constantes, ou
diminuem até ao ponto de extinção. Em segundo lugar, a explicação apresenta
uma inteligibilidade imanente nos dados, fundada em similaridades e diferenças,
em números e nas suas taxas de mudança, nas distribuições à superfície da
terra e através das épocas geológicas. Em terceiro lugar, a sua
inteligibilidade imanente difere radicalmente da inteligibilidade imanente, por
exemplo, da teoria da gravitação universal de Newton ou a afirmação de
Laplace sobre uma única fórmula matemática, segundo a qual uma inteligência
adequadamente dotada deduz qualquer situação do mundo a partir da informação
completa de uma única situação. O seguidor de Laplace não consegue chegar a
conclusões determinadas sem que lhe forneçam informações completas e
precisas sobre a situação básica. Mas o seguidor de Darwin é indiferente aos
pormenores da situação básica, e obtém as suas conclusões apelando à selecção
natural de variações ao acaso que surgem em qualquer dos muito variados
processos terrestres de qualquer das situações iniciais bastante variadas. Não é difícil discernir, na selecção natural de variações, ao acaso
de Darwin um caso particular de uma fórmula mais geral. Visto não ser uma única
variação isolada, mas uma combinação de variações que são significativas
para o processo evolutivo. Mais uma vez, embora estas combinações de variações
sejam atribuídas ao acaso, no sentido do biólogo interessar-se, não na
causalidade eficiente, mas numa inteligibilidade imanente, contudo, o que é
significativo para a evolução é a probabilidade de emergência de tais
combinações de variações, e não a divergência não sistemática da sua
probabilidade que é o nosso significado para a palavra "acaso".
Finalmente, uma vez que a variação ao acaso é uma instância da probabilidade
de emergência, também a selecção natural é uma instância da probabilidade
de sobrevivência. A selecção artificial é trabalho demiúrgico, que acasala
as plantas ou animais possuidores das características que procura encorajar. A
selecção natural é trabalho da natureza, dá menor expectativa de vida, daí
que as ninhadas sejam nocivas aos tipos menos bem equipados para se safarem por
si próprios. Mesmo assim, a natureza efectua esta selecção, não com a
previsibilidade das mudanças das fases da lua, mas apenas com uma tendência
geral que admite excepções e eleva a eficácia com o aumento dos números e
prolongamento dos intervalos de tempo. Em resumo, a selecção natural significa
a sobrevivência de acordo com as probabilidades. Assim sendo, estas combinações de variações, que possuem probabilidades
de emergência e de sobrevivência, são relevantes para os esquemas de recorrência.
A vida concreta de qualquer animal ou planta vê-se como um conjunto de sequências
de operações. Estas operações são de vários tipos; há muitas do mesmo
tipo; e as que são do mesmo tipo ocorrem em alturas diferentes. Existem então,
em cada conjunto de sequências operações recorrentes, e a regularidade da
recorrência revela a existência e funcionamento de esquemas. Dentro destes esquemas, a planta ou animal é apenas um componente. O total
do círculo esquemático dos eventos não ocorre no ser vivo, mas vai para além
dele até ao ambiente, do qual a subsistência é ganha e no qual a descendência
nasce. Sem dúvida, quanto mais superior for o tipo, maior a complexidade e
maior a proporção dos eventos significativos que ocorrem no animal. Mas esta
maior complexidade significa que o círculo maior liga-se a uma série de círculos
mais pequenos e incompletos. A circulação vascular ocorre no animal, mas
depende do sistema digestivo, que depende da capacidade do animal em lidar com o
seu ambiente, e por sua vez, esta capacidade depende do crescimento e nutrição
assegurados pelo sistema vascular. Mais uma vez, a planta ou animal é uma componente de uma série de
esquemas. Ao contrário dos planetas, que se mantêm no seu curso no sistema
solar, e como os electrões, que se imagina a saltar de uma órbita para a
outra, a planta ou animal entra numa série de conjuntos de esquemas
alternativos. Estes esquemas estão num intervalo limitado pela estrutura e
capacidade imanentes. Mesmo limitado, permanece aberto a alternativas. E sem
mudança da estrutura ou da capacidade básica, a planta ou animal continua a
sobreviver dentro de algumas variações de temperatura e pressão, da água ou
ar ambientais, da luz solar e do
solo, da população flutuante de outras plantas ou animais com os quais vive. Neste ponto, no entanto, as diferenças entre o darwinismo e a probabilidade
emergente começam a desvelar-se. A probabilidade emergente afirma uma série
condicionada de esquemas de recorrência que se realizam de acordo com planos
sucessivos de probabilidade. O darwinismo, por outro lado, afirma uma série
condicionada de espécies de coisas a realizar-se de acordo com planos
sucessivos de probabilidades. As duas visões são paralelas na sua estrutura
formal. Relacionam-se porque as espécies de coisas emergem e funcionam dentro
de intervalos de conjuntos alternativos de esquemas de recorrência. No entanto,
existe uma diferença profunda. As probabilidades darwinianas de emergência e
sobrevivência reportam-se, não a esquemas de recorrência, mas aos
correspondentes componentes de quaisquer esquemas dentro de um intervalo
limitado, e a série darwiniana de espécies é uma sequência de
potencialidades superiores, que exibem o seu desenvolvimento pela sua capacidade
de funcionar em intervalos ainda maiores de conjuntos de esquemas alternativos. Esta diferença força-nos a lembrar que o reconhecimento presente de
probabilidade emergente não procura completar-se. Não levantámos a questão:
O que são coisas? Não determinámos se existe uma resposta a esta questão que
satisfaça o cânone científico da parcimónia. Da mesma forma, apresentámos a
probabilidade emergente neste capítulo com a condição de numa fase ulterior,
quando a noção de coisa fosse investigada, surgisse a necessidade um
desenvolvimento adicional da análise. No entanto, não é despropositado acrescentar que a investigação da
palavra "coisa" resulta de uma manifestação adicional do dualismo no
pensamento acrítico. Tal como o determinismo mecanicista, também o darwinismo
envolve uma visão do mundo extracientífica. E como substituímos a selecção
natural das variações ao acaso pela probabilidade emergente dos esquemas de
recorrência, também no capítulo 8 analisaremos que uma noção crítica de
coisa necessita de uma distância ainda mais significativa das suposições
filosóficas inconscientes da ciência do século dezanove. 3.4 O Indeterminismo
[134-39] Por indeterminismo refere-se à tendência contemporânea que deve a sua
origem às equações verificadas da mecânica quântica, mas que vai além da
sua fonte porque pronuncia-se sobre a natureza do conhecimento científico e,
igualmente, de assuntos filosóficos. Embora oponha-se radicalmente ao
determinismo mecanicista, as suas características positivas não admitem uma
descrição sumária, e talvez o nosso objectivo se sustente de melhor forma
através de uma discussão sucessiva de uma série de assuntos. Em primeiro lugar, se Galileu distinguiu entre qualidades secundárias
meramente aparentes e as dimensões objectivas da matéria em movimento, também
houve indeterministas a oferecer uma revelação paralela da natureza da
realidade. A antiga distinção entre real e aparente mantém-se, mas agora o
real é microscópico e ao acaso, enquanto que o meramente aparente é o macroscópico,
no qual as leis clássicas verificam-se. No entanto, mencionamos este assunto
apenas para declinar uma discussão imediata. Mais tarde, num contexto filosófico,
iremos tentar um relatório explicativo da variedade quase infinita de visões
com realidade e objectividade. Por enquanto contentar-nos-emos com o cânone da
parcimónia: o cientista afirma que pode verificar, e não pode afirmar que não
pode verificar. Em segundo lugar, os indeterministas tendem a rejeitar as antigas partículas
imagináveis e a favorecer algum tipo de simbolismo conceptual. Aqui, mais uma
vez, o assunto a debater é a natureza precisa da realidade, mas agora, apelando
ao cânone da parcimónia, chegamos a duas conclusões. Por um lado, parece que
a única verificação possível, do imaginado como imaginado, situa-se numa
sensação correspondente; em concordância, se as partículas são demasiado
pequenas e as ondas demasiado subtis para sentirem-se como partículas e ondas,
então as partículas como imaginadas e as ondas como imaginadas não podem
verificar-se; e se não podem verificar-se , não podem afirmar-se pelo
cientista. Por outro lado, é possível verificar se as formulações
conceptuais possuem implicações sensoriais; a esta proporção, de um aumento
do número e variedade destas implicações, corresponde a experiência sensível,
aproxima-se a verificação da formulação conceptual. Assim sendo, a
relatividade especial é dita como provável, não porque muitos cientistas
sentiram que houve uma análise positiva a um múltiplo espaço a quatro dimensões,
mas porque muitos cientistas, ao trabalhar em diferentes problemas encontraram
procedimentos e previsões baseados na relatividade especial como muito bem
sucedidos. Em terceiro lugar, ocorre uma argumento entre a imprecisão dos dados à
inverificabilidade final das leis clássicas. Embora não o ache convincente,
merece atenção. Visto apelar ao critério da verificabilidade; assenta no sólido
facto da imprecisão dos dados; e exclui más concepções da natureza das leis
clássicas. Para começar, a imprecisão dos dados não se pode negar. 0 que em si próprio
é determinado, não é nunca um dado mas sempre um conceito. Os dados, de si próprios,
afirmam-se determinados materialmente ou potencialmente; mas tornam-se
determinados formalmente porque subordinam-se a conceitos; e este processo de
subordinação prolonga-se indefinidamente. Por isso, uma maior determinação
formal dos dados é possível desde que os conceitos científicos sejam revistos
para gerar objectos de medida mais precisa, e desde que as técnicas científicas
sejam revistas para tornar as medidas ainda mais rigorosas. Mas a partir do
momento em que uma determinação formal dos dados maior é possível, a
determinação que realmente se
atinge combina-se com uma determinação restante não especificada potencial.
Este resto não especificado é a imprecisão dos dados, e estará connosco
enquanto forem possíveis novos conceitos e medições mais rigorosas. No entanto, a imprecisão dos dados, por si só, não prova a
inverificabilidade das leis clássicas. Logicamente, é impossível para uma
conclusão válida conter um termo que não aparece nas premissas. Mais
concretamente, é verdade que, de cada vez que os dados se tornam mais
determinados formalmente, descobrem-se novas leis clássicas; neste caso, a
imprecisão dos dados prova, não que as leis clássicas são inverificáveis,
mas que as leis clássicas existentes sempre foram sujeitas a revisão em favor
de outras leis clássicas. Aproxima-se do assunto ao discutir-se que as leis clássicas são formulações
conceptuais, que possuem toda a precisão e determinação dos conceitos, que não
se podem despir desta precisão e determinação sem deixarem de ser leis clássicas.
Em contraste, os dados são irredutivelmente imprecisas. Porque as medições
nunca são rigorosas à nésima casa decimal , em que n é tão grande quanto se
deseja, as leis clássicas nunca são mais do que aproximativas. A sua
determinatividade está em conflito radical com a imprecisão dos dados; e por
isso as leis clássicas, essencialmente, são inverificáveis. Contudo, este argumento torna-se válido caso as leis clássicas
interpretem-se concretamente. Pois numa interpretação concreta, as leis clássicas
são supostas a afirmar as relações entre os dados, ou entre os elementos em
estrita correspondência com os dados. Mas não existem relações completamente
determinadas entre termos essencialmente imprecisos; daí que numa interpretação
concreta, as leis clássicas sejam encaradas como nada mais do que
interpretativas. Todavia, não há necessidade de interpretar as leis clássicas
concretamente. Podem ser afirmações de elementos no abstracto, onde (1) o
sistema abstracto é constituído por relações e termos implicitamente
definidos, (2) o sistema abstracto não está directamente ligado aos dados mas
através da mediação de conceitos descritivos complementares, e (3) as leis do
sistema abstracto são ditas e verificadas na medida em que designam limites nos
quais, tudo o resto sendo igual, uma vasta variedade de dados converge.
Demonstrado isto, as relações completamente determinadas das leis clássicas
estão entre os termos completamente determinados que implicitamente definem.
Esta estrutura fechada refere-se a dados através de um conjunto de conceitos
aproximativos e descritivos. Finalmente, a estrutura fechada prova-se relevante
para os dados, não pela exacta coincidência, mas por designar limites nos
quais os dados convergem. Em quarto lugar, a afirmação da convergência é, também, a admissão da
divergência. Não é uma admissão equivalente à afirmação das leis clássicas
serem, no fim de contas, verificáveis? Mais uma vez, o assunto é a natureza precisa da verificação. Dificilmente
pretende-se que uma única lei não se verificasse por não contar com toda a
nossa experiência. Mas o que serve para leis isoladas serve também para a
totalidade das leis clássicas. A existência de divergência prova que as leis
clássicas não são o todo do nosso conhecimento explicativo. Mas, embora não
sejam o todo, podem ser parte; e as leis clássicas que são esta parte, são
aquelas que se verificam no sentido de designar os limites nos quais os dados
convergem. Em quinto lugar, pretende-se que a mecânica quântica seja a teoria mais
geral e que inclua a mecânica newtoniana como um caso particular. Neste caso,
eu sugiro a relevância de uma distinção entre inclusão lógica e aplicação
concreta. Não vejo qualquer razão para entrar no contencioso, em que a equação
do tempo de Schrõdinger possa, plausivelmente, simplificar-se na segunda lei do
movimento de Newton. Mas daqui não se infere que a simplificação não tenha
análogo no mundo dos eventos. Pelo contrário, afigura-se que um tal análogo
existe se os esquemas de recorrência tiverem uma realização perfeita; e neste
caso, parece difícil manter o rigor das observações básicas como o único
limite do rigor das previsões. Mais realisticamente, desde que os esquemas não
se realizem perfeitamente ou que a realização perfeita não se possa
averiguar, pelo menos a razão das divagações objectivas ou da ignorância
subjectiva pode-se designar. Em sexto lugar, discute-se se o determinismo é verdadeiro ou falso, e
parece que evitamos este assunto. Mas ao admitir-se a disjunção, somos forçados
a questões filosóficas. Pelo menos, no presente contexto, a discórdia
relaciona-se com o facto do velho determinismo, com as suas implicações filosóficas,
dar lugar a uma nova visão, puramente metodológica, que consiste na antecipação
de um determinado objecto. Uma tal visão permanece dentro dos limites da ciência empírica
Distingue-se entre uma componente antecedente de condições metodológicas e
uma componente consequente de leis e frequências provavelmente verificadas.
Ambas as componentes consideram-se variáveis. A componente antecedente
desenvolve-se: inicialmente consiste em generalidades tão vagas como a asserção
de haver uma razão para tudo; subsequentemente, como a ciência avança, aceita
a precisão crescente das estruturas heurísticas, cada vez mais rigorosamente
diferenciadas. Também a componente consequente sujeita-se a variação, pois o
que se vê como verificável, em cada instante, questiona-se e submete-se a
revisão. A conjunção concreta de dois componentes nas mentes dos cientistas
constitui, a cada altura as antecipações de um determinado objecto; e quando
as componentes sofrem mudanças profundas, haverá, naturalmente, alguma
incerteza nas suas antecipações. Deste ponto de vista, o velho determinismo confundiu-se não só por
envolver-se em assuntos filosóficos, mas também por não conseguir desvendar a
possibilidade de desenvolvimento em estruturas heurísticas. Supõe a validade
universal de um tipo de explicação que é possível caso as situações esquemáticas
realizem-se de forma perfeita. Não considera a possibilidade de um tipo de
explicação, no qual as probabilidades não esquemáticas responsabilizem-se
pela emergência do esquemático. O indeterminismo é verdadeiro como uma negação do velho determinismo. Mas
não evita a necessidade de suposições e preceitos metodológicos; não evita
a sua conjunção no pensamento com leis e frequências que se consideram
verificáveis; e assim não são bem sucedidas para adiar o dia em que, de um
novo ponto de vista, as antecipações científicas encaram mais uma vez um
objecto determinado a ser conhecido. No entanto, no presente momento há alguma dificuldade em especificar, de
uma forma universalmente aceitável, qual o objecto determinado que a ciência
vai antecipar. Um estudante do conhecimento humano realiza sugestões que
respeitam a componente antecedente, e por isso ofereci uma visão unificada que
antecipa, simultaneamente, o sistemático e o não sistemático sem excluir
casos particulares de discernimento de situações não esquemáticas concretas.
A possibilidade de discernimento concreto em situações não esquemáticas da
ordem subatómica, questionam-se tanto em terreno prático como teórico. No
entanto, não proponho que se discuta este aspecto do assunto, principalmente
porque respeita a componente consequente das antecipações metodológicas, mas,
também, porque penso que as discussões da possibilidade concreta sofrem de uma
ambiguidade radical. Em qualquer assunto concreto é sempre possível
discernimento adicional, e quando ocorre, o que anteriormente pareceu impossível
mostra-se, afinal de contas, bastante exequível. 4 Conclusão
[139] Vamos terminar este longo capítulo. Começou com o problema da
aparente dualidade que surgiu da existência de dois tipos de intelecção, duas
estruturas heurísticas, e dois métodos distintos de investigação empírica.
Estava fora de questão eliminar a dualidade, pois ambas as intelecções,
directa e inversa, ocorrem. Restava, então, a tarefa de relacionar
procedimentos e resultados diversos num todo. Numa primeira secção,
discutiu-se que as investigações clássica e estatística são actividades
cognitivas complementares. Numa segunda secção, revelou-se como os seus
resultados, independentemente do seu conteúdo preciso, podem combinar-se numa
única visão do mundo. Numa terceira secção, esta visão do mundo
contrastou-se com a aristoteliana, com a do determinismo mecanicista, com a visão
darwiniana, e com as tendências contemporâneas para afirmar o indeterminismo.
No decurso da argumentação do problema da coisa, e com ele o problema da
objectividade, tornou-se crescentemente óbvio. Mas antes de se prender estes
vastos assuntos, é aconselhável alargar a base das nossas operações, e por
isso viramo-nos para as noções de espaço e tempo. |



