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Cap. 15 ELEMENTOS DA METAFÍSICA Delineado um programa no capítulo anterior, tratamos neste de o cumprir. Temos de explicitar a metafísica latente da mente humana, e o primeiro passo consiste em estabelecer os respectivos elementos, que são seis: potência central, forma central, acto central, potência conjugada, forma conjugada e acto conjugado. A tarefa de os distinguir e relacionar será, à luz dos capítulos anteriores, relativamente breve. Mas a prevalência de contra-posições fez com que parecesse desaconselhável – se não mesmo impossível – ultrapassar o problema do método genético sem sermos capazes de empregar os nossos conceitos metafísicos básicos; por isso, este capítulo é extenso e um pouco complexo devido à necessidade de clarificar a noção de desenvolvimento e de delinear a estrutura heurística do método genético, quer em geral, quer aplicada ao organismo, ao psiquismo, à inteligência e à sua combinação no ser humano. 1.
POTÊNCIA, FORMA E ACTO Concebeu-se a metafísica como a estrutura heurística integral do ser proporcionado. A metafísica remete para uma data futura indefinidamente remota, que abrangerá todo o domínio do ser proporcionado. Interroga o que, aqui e agora, se pode conhecer dessa explicação futura. Responde que, embora jamais se atinja uma explicação plena, pelo menos pode-se conhecer desde já a estrutura desse conhecimento explicativo. O ser proporcionado é tudo o que há para ser conhecido pela experiência, pela apreensão inteligente e pela afirmação razoável. Embora seja um conhecimento com três componentes, uma deles é uma incógnita. O conteúdo da apreensão inteligente do ser proporcionado permanece necessariamente incógnito, até se atingir a explicação plena. Mas o conteúdo da afirmação razoável já é conhecido, pois é um ‘Sim’ virtualmente incondicionado. E o conteúdo da experiência que sobrevive no conhecimento plenamente explicativo também já é conhecido, pois consiste na experiência intelectualmente configurada do resíduo empírico; e já sabemos que a experiência se encontra na sua configuração intelectual quando é dominada pelo desejo isento e desinteressado de conhecer; e também já determinámos que o resíduo empírico reside na individualidade, na continuidade, nas conjunções e sucessões coincidentes e na divergência não-sistemática em face das normas inteligíveis que são conhecidas pela experiência e apenas pela experiência. Introduzamos, por conseguinte, os termos ‘potência’, ‘forma’ e ‘acto’. ‘Potência’ denota o componente do ser proporcionado a ser conhecido, no conhecimento plenamente explicativo, por uma experiência intelectualmente configurada do resíduo empírico. ‘Forma’ denota o componente do ser proporcionado a ser conhecido, não pela compreensão dos nomes das coisas nem pela compreensão das relações destas connosco, mas pela compreensão plena delas nas suas relações entre si. ‘Acto’ denota o componente do ser proporcionado a ser conhecido pela articulação do ‘Sim’ virtualmente incondicionado do juízo razoável. Daqui se segue que a potência, a forma e o acto constituem uma unidade, pois o que se experiencia é o que se compreende e o que se compreende é o que se afirma. Os três níveis da actividade cognitiva geram um conhecimento unitário, pois a experiência não é, por si só, conhecimento humano; a experiência e a compreensão não são suficientes para conhecer; só surge o conhecimento propriamente dito quando se atinge o incondicionado, e a afirmação ou a negação ocorrem. De igual modo, os conteúdos dos três níveis da actividade cognitiva constituem uma unidade. Não se conhece um primeiro ser proporcionado pela experiência, um segundo pela comprensão e um terceiro pelo juízo; pelo contrário, os três conteúdos fundem-se num único conhecido. Logo, dado que são conhecidos pela experiência, pela compreensão e pelo juízo, a potência, a forma e o acto não são três seres proporcionados, mas sim três componentes num único ser proporcionado. Segue-se daqui que a potência, a forma e o acto não só constituem uma unidade, como também partilham uma definição ou especificação comum. É que a experiência não define, nem especifica; limita-se a apresentar. Por outro lado, o juízo não define nem especifica; limita-se a afirmar ou negar o que já foi definido ou especificado. Todo o definir e especificar ocorre ao nível da compreensão e, portanto, a unidade constituída pela potência, pela forma e pelo acto possui uma única definição ou especificação que se obtém dessa forma cognitiva. Finalmente, a exposição precedente da potência, da forma e do acto abrange toda e qualquer explicação científica. Uma explicação científica é uma teoria verificada em casos particulares; enquanto verificada, refere-se ao acto; enquanto teoria, refere-se à forma; enquanto em casos particulares, refere-se à potência. Além disso, enquanto teoria de tipo clássico, refere-se às formas enquanto formas; enquanto teoria de tipo estatístico, refere-se às formas enquanto estabelecem frequências ideais, das quais os actos não divergem sistematicamente; enquanto teoria de tipo genético, refere-se às condições de emergência da forma a partir da potência. Em secções subsequentes, distinguiremos diferentes tipos de potência, de forma e de acto; mas desde já, chamamos a atenção para o facto de, conquanto empreguemos os termos introduzidos por Aristóteles e lhes atribuamos um sentido que este reconheceria como seu, o uso corrente por parte de Aristóteles do conhecimento meramente descritivo e a nossa insistência na explicação correspondem a diferentes pontos de partida, diferentes tendências e diferentes implicações. É boa doutrina aristotélica afirmar que a potência está para a forma como o olho para a visão, e que a forma está para o acto como a visão para o ver. Mas é uma doutrina acentuadamente mais aristotélica afirmar que a potência está para a forma como a privação de calor está para o calor, e que a forma está para o acto como o calor para o aquecer. Embora o exemplo psicológico esteja de acordo com as nossas definições, o exemplo físico não pode harmonizar-se com elas. O exemplo psicológico está de acordo com as nossas definições. A forma é o que há para ser conhecido pela intelecção; mas a “visão” é conhecida na medida em que compreendemos os olhos como orgãos da visão, ou em que compreendemos as experiências do ver como fundadas na posse da visão. Além disso, o acto é conhecido pelo “Sim” do juízo; não sabemos que uma pessoa está a ver pela mera inspecção dos olhos ou pela compreensão de que os olhos inspeccionados são orgãos da visão, mas sim pela afirmação de que a visão compreendida está a ser utilizada. Por último, a potência é o que há para ser conhecido pela experiência intelectualmente configurada do resíduo empírico, e uma tal experiência ocorre quando inspeccionamos os olhos a fim de os compreender. Mas o exemplo físico não pode ser subsumido nas nossas definições. A forma é o que há para ser conhecido pela intelecção, mas Aristóteles considerava formas o que ele denominava “sensíveis próprios”, isto é, cores, sons, calor e frio, húmido e seco, duro e mole, pesado e leve, etc. São, quando muito, formas extremamente ambíguas: no objecto, são sensíveis em potência; na sensação, são sensíveis em acto; enquanto nomeadas, são associadas a qualquer qualidade suficientemente semelhante através de um intelecção que apreende o modo de usar o nome; enquanto objectos de investigação, entram numa estrutura heurística que procura o que será conhecido quando forem compreendidas; finalmente, enquanto explicadas, relacionam-se com leis que definem implicitamente termos conjugados. Qual das cinco é a forma aristotélica “calor”? Além disso, o acto é o que há para ser conhecido pelo “Sim” do juízo; mas o “aquecer” não é conhecido desta maneira simples. Conhecer o “aquecer” é saber que existem duas instâncias de calor e que uma delas é causalmente derivada da outra. Por último, a potência é conhecida pela experiência intelectualmente configurada do resíduo empírico. Mas a potência da forma “calor” é a privação dessa forma; essa forma não é apenas conhecida pela experiência da forma contrária, “frio”, mas pela compreensão desta como contrário do calor e excluindo o calor. [1] É
fácil ver como a ambiguidade das noções físicas de Aristóteles levou a que
fosse humanamente inevitável um conflito com a ciência renascentista. Se a
forma do calor é o que há para ser conhecido pela compreensão do calor, então
os aristotélicos estavam fadados a aprovar o esforço compreensivo dos
cientistas. Na realidade, aconteceu uma comédia de enganos. Os aristotélicos não
captaram bem a doutrina da intelecção de representações imaginativas de
Aristóteles e não tinham noção da estrutura heurística que se dirige para a
intelecção. Por outro lado, os cientistas não concebiam a explicação como
um conhecer na medida em que se compreende; o seu pensamento encontrava-se
dominado pela noção de objectividade como extroversão; neste sentido, negavam
que os sensíveis próprios estivessem realmente “aí fora”; e concebiam a
explicação como redução das qualidades aparentes às dimensões reais da matéria
2.
FORMAS CENTRAIS E CONJUGADAS O segundo passo no desenvolvimento da estrutura heurística integral do ser proporcionado consistirá em distinguir dois casos gerais de potência, forma e acto. É que embora as formas do ser proporcionado só venham a ser plenamente conhecidas quando a explicação plena for alcançada, a existência actual de técnicas heurísticas pode, ainda assim, mostrar de imediato que existem diferentes tipos de formas. Ademais, se existem diferentes tipos de formas, têm de existir diferentes tipos de potência e de acto, pois a potência, a forma e o acto constituem um único conhecido e partilham uma definção comum, e a potência e o acto que partilham a definição de um tipo de forma têm de diferir da potência e do acto que partilham a definição distinta de um outro tipo. Ora, na raiz do método clássico estão dois princípios heurísticos. O primeiro é que as coisas semelhantes são compreendidas de modo semelhante, que uma diferença na compreensão pressupõe uma diferença significativa de dados. O segundo é que as semelhanças relevantes para a explicação não residem nas relações das coisas com os nossos sentidos, mas sim nas suas relações entre si. Em seguida, quando estes princípios heurísticos são aplicados, surgem classificações por semelhança sensível, depois correlações, e por último a verificação de correlações e de sistemas de correlações. Mas as correlações verificadas envolvem necessariamente a verificação de termos implicitamente definidos pelas correlações; e não envolvem mais do que tais termos implicitamente definidos enquanto relacionados, pois o que é rigorosamente verificado não é esta ou aquela proposição particular, mas sim a proposição geral e abstracta para a qual convergem séries de séries de proposições particulares. Assim, existe uma estrutura heurística fundamental que conduz à determinação dos conjugados, isto é, de termos implicitamente definidos pelas suas relações explicatórias e verificadas empiricamente. Tais termos enquanto relacionados são conhecidos pela compreensão, e portanto são formas. Denominemo-las formas conjugadas. Uma vez que tais formas são verificadas no resíduo empírico da experiência, constituem unidades juntamente com as potências conjugadas e os actos conjugados. Assim, a potência conjugada é potência para uma forma conjugada e o acto conjugado é acto de uma forma conjugada, onde a potência para a forma e o acto da forma significam que a potência, a forma e o acto em questão constituem uma única unidade. Além disso, a estrutura heurística que conduz ao conhecimento das formas conjugadas torna necessária outra estrutura que conduz ao conhecimento das formas centrais. Alcançam-se os conjugados explicativos ao considerar dados semelhantes a outros dados, mas os dados que são semelhantes também são concretos e individuais; e, enquanto concretos e individuais, são compreendidos na medida em que neles se apreende uma unidade, uma identidade e um todo, concretos e inteligíveis. Ninguém pode dispensar ou transcender esta apreensão. É que a ciência avança através da interacção de descrições cada vez mais precisas e explicações cada vez mais satisfatórias dos mesmos objectos. A menos que os objectos sejam os mesmos, não existe relação entre a descrição e a explicação e, portanto, nenhuma razão para que a explicação modifique a descrição ou para que a descrição conduza a uma explicação melhor. O único objecto que permanece o mesmo é a unidade, a identidade, o todo, concretos e inteligíveis; os conjugados explicativos mudam, e os termos descritivos e experienciais sofrem modificações e novos arranjos. Assim, enquanto a ciência se desenvolver, é indispensável noção de unidade inteligível. Contudo, tanto no seu termo como no seu desenvolvimento, as conclusões científicas precisam de ser apoiadas pelas provas; as provas para tais conclusões residem na mudança, e sem unidades concretas e inteligíveis nada há para mudar, pois a mudança não é a substituição de um dado por outro, nem a substituição de um conceito por outro; consiste na mesma unidade concreta e inteligível que proporciona a unificação a dados sucessivamente diferentes; e, portanto, sem a unidade não existe mudança, e sem mudança falta uma boa parte da prova, senão mesmo toda, para as conclusões científicas. Por último, a ciência é aplicável a problemas concretos; mas nem o conhecimento descritivo, nem o conhecimento explicativo podem ser aplicados a problemas concretos sem o uso do demonstrativo este, e esse demonstrativo só pode ser usado na medida em que existe uma ligação entre conceitos e dados enquanto individuais; somente a noção da unidade concreta e inteligível dos dados fornece tal ligação e, portanto, essa noção é necessária à ciência enquanto aplicada. Ora as unidades concretas e inteligíveis são conhecidas pela compreensão; são, por conseguinte, formas. Mas são assaz diferentes das formas conjugadas e, portanto, deve reconhecer-se um outro tipo de forma, a que chamaremos “forma central”; e, tal como a forma conjugada implica uma potência conjugada e um acto conjugado, também a forma central implica uma potência central e um acto central. A diferença entre a nossa forma central e a forma substancial de Aristótles é meramente nominal. É que a forma substancial aristotélica é o que é conhecido ao apreender uma unidade inteligível, um unum per se. No entanto, uma vez que o sentido da palavra substância foi profundamente influenciado por Locke, e que a confusão cartesiana entre “corpo” e coisa conduziu a uma identificação entre a substância e a extensão e, de seguida, à réplica de que a substância subjaz à extensão, julguei aconselhável, pelo menos temporariamente, libertar-me deste emaranhado verbal. A diferença entre a nossa forma conjugada e a forma acidental de Aristóteles é em parte nominal, em parte real. O termo “acidental” é enganador, pois sugere o meramente incidental. Além disso, as formas acidentais da teoria física de Aristóteles eram, talvez, qualidades sensíveis enquanto sentidas, mas nós não admitimos quaisquer formas que sejam conhecidas separadamente da compreensão. Por último, o termo “conjugado” realça o que consideramos ser a característica essencial das relações inteligíveis mútuas que definem implicitamente as formas conjugadas. A distinção entre as formas centrais e conjugadas leva à distinção entre actos centrais e conjugados. O acto central é a existência, pois o que existe é a unidade inteligível. O acto conjugado é a ocorrência, pois o que ocorre é definido explicatoriamente ao apelar para a forma conjugada. De modo semelhante, surge uma divisão do resíduo empírico entre potência central e potência conjugada. Uma vez que a forma central é a unidade inteligível dos dados enquanto individuais, a potência central pode ser identificada com a individualidade do resíduo empírico. Por outro lado, as formas conjugadas são verificadas em contínuos, conjunções e sucessões espacio-temporais, e, portanto, estes aspectos do resíduo empírico devem ser atribuídos à potência conjugada. A fim de ilustrar o sentido dos termos potência, forma e acto, enquanto centrais e potência, forma e acto, enquanto conjugados, supunhamos que velocidade-massa é uma noção que sobrevive na ciência plenamente explicativa. Então a velocidade-massa será um acto conjugado; a massa, definida pelas suas relações inteligíveis com outras massas, será uma forma conjugada; o contínuo espaço-tempo da trajectória será uma potência conjugada; o que tem massa será individual devido à sua potência central, uma unidade devido à sua forma central e um existente em virtude do seu acto central. 3.
GÉNEROS E ESPÉCIES EXPLICATIVOS Os géneros e as espécies são explicativos se resultarem de classificações baseadas no conhecimento explicativo e não de classificações baseadas em semelhanças e dissemelhanças sensíveis. O carácter geral de tal conhecimento já foi indicado no capítulo acerca das “Coisas”, mas talvez não seja despropositado reformulá-lo em termos de potência, forma e acto, centrais e conjugados, antes de colocar uma dupla questão, a saber: se essa é a estrutura dos géneros e espécies explicativos e se tal estrutura sobreviverá ou não no conhecimento plenamente explicativo do ser proporcionado. Em primeiro lugar, se existe alguma ciência explicativa, então existe um conjunto de formas conjugadas, chamemos-lhe Ci, definida implicitamente pelas suas relações empiricamente estabelecidas e explicativas. As diferentes combinações de formas do conjunto Ci servem para definir explicativamente as unidades ou coisas Ti que diferem especificamente umas das outras, mas que pertencem ao mesmo género explicativo. Além disso, as diferentes combinações das correlações verificadas geram um domínio de esquemas de recorrência Si e, na medida em que esses esquemas são realizados, tornam sistemática a ocorrência de actos conjugados Ai. Em segundo lugar, ou todos os actos conjugados do tipo Ai ocorrem sistematicamente, ou alguns ocorrem sistematicamente em virtude dos esquemas Si, enquanto outros ocorrem aleatoriamente. Se existem tais ocorrências aleatórias, então existem, ao nível dos actos conjugados, instâncias do resíduo meramente empírico. É que uma multiplicidade de ocorrências aleatórias fornece um domínio muito mais vasto de conjunções e sucessões meramente coincidentes, e tais conjunções e sucessões pertencem ao resíduo empírico. Em terceiro lugar, há uma outra possibilidade. Além de ocorrerem sistematicamente em virtude dos esquemas Si e de ocorrerem aleatoriamente, os actos conjugados de tipo Ai também podem ocorrer assaz regularmente, mas de uma maneira de que não se pode dar conta através de um dos esquemas Si. Nesse caso, temos a prova necessária e suficiente para afirmar a existência de outro conjunto de conjugados Cj, que define outro género de coisas Tj e gera outro domínio de esquemas Sj que torna sistemático outro tipo de actos conjugados Aj. Em quarto lugar, a possibilidade anterior é recorrente. Assim como uma multiplicidade aleatória de actos conjugados Aij é uma instância do resíduo empírico e, deste modo, fornece a potência conjugada para a sistematização superior através das formas conjugadas Cj, também uma multiplicidade de actos conjugados Ajk pode ser uma instância do resíduo empírico que fornece a potência conjugada para a sistematização ainda mais elevada através das formas conjugadas Ck. De acordo com isto, pode haver uma série de géneros Ti, Tj e Tk, ... e, dentro de cada género, pode haver diferentes espécies, pois as coisas são definidas pelas suas formas conjugadas e as formas conjugadas diferem na medida em que sistematizam diversamente as suas diferentes multiplicidades subjacentes de actos conjugados de ordem inferior. Em quinto lugar, nas coisas de um género superior sobrevivem potências, formas e actos conjugados inferiores, mas não coisas inferiores. Os conjugados inferiores sobrevivem pois, sem eles, nada haveria para o sistema superior de conjugados sistematizar. Por outro lado, as coisas inferiores não sobrevivem no seio de coisas superiores. É que uma coisa é a unidade concreta e intelgível dos dados concretos e individuais, os mesmos dados diversamente perspectivados podem fornecer a evidência para diferentes formas conjugadas, mas os mesmos dados sob a totalidade dos seus aspectos não podem ser os dados para coisas diferentes. Se um dado, sob todos os seus aspectos, pertence a uma coisa, então não pertence a nenhuma outra coisa; logo, se existe uma coisa superior, existem dados para afirmá-la; e esses mesmos dados não são dados para nenhuma outra coisa. Deve notar-se, no entanto, que não falamos de “corpos”, mas sim de coisas. No interior do “corpo” de um animal, podem haver muitas coisas diferentes; mas estas coisas diferentes não são o animal, nem partes dele; podem ser “corpos” estranhos; podem viver em simbiose com o animal; mas não pertencem ao animal do mesmo modo que os seus olhos e outros orgãos. Em sexto lugar, existirão ciências empíricas distintas e autónomas correspondentes aos sucessivos géneros. É que cada género tem o seu próprio domínio de esquemas de recorrência Si, Sj, Sk, ... A investigação destas regularidades levará à descoberta de correlações empiricamente verificadas e, assim, de conjuntos implicitamente definidos de conjugados Ci, Cj, Ck ... Todos os termos do conjunto Ci serão definidos pelas suas relações internas; todos os termos do conjunto Cj serão definidos pelas suas relações internas; e uma vez que os dois conjuntos não têm termos em comum, não haverá relação lógica de um conjunto para o outro. Uma vez que não há relação lógica de um conjunto para o outro, as diversas ciências empíricas serão distintas e autónomas. Em sétimo lugar, as sucessivas e distintas ciências autónomas estarão relacionadas enquanto perspectivas superiores sucessivas. É que as multiplicidades coincidentes de actos conjugados inferiores – digamos Aij – podem ser imaginadas simbolicamente. Uma vez que as multiplicidades coincidentes são a potência conjugada para formas conjugadas superiores, as imagens simbólicas fornecem os materiais para a intelecção das leis que relacionam as formas superiores. Mas existe uma perspectiva superior quando as imagens de operações de nível inferior geram intelecção das leis que governam as operações de nível superior. De acordo com isto, a estrutura dos géneros sucessivos corre paralelamente à estrutura das perspectivas superiores sucessivas. Em oitavo lugar, este paralelo pode ser afirmado como uma posição ou como uma contraposição. Se se afirma que o real é ser e é para ser conhecido pela apreensão inteligente e pela afirmação razoável, então o real consistirá em unidades existentes diferenciadas por formas conjugadas de vários géneros e espécies. Nesse caso, as imagens simbólicas terão um valor meramente heurístico, pois servirão para facilitar a transição de uma ciência para outra e determinar até que ponto os dados são ou não explicados quer por uma, quer por outra. Por outro lado, se se afirma que o real é uma subdivisão do “agora aí fora”, então as imagens não serão símbolos heurísticos, mas representações das coisas como realmente são; os sistemas inteligíveis sucessivos serão arranjos meramente subjectivos, pois o inteligível não pode ser imaginado; e, assim, a realidade de cada um dos géneros superiores é esvaziada para o inferior, até que se atinge a imagem do mais baixo; e uma vez que o género mais baixo é imaginado como sendo demasiado pequeno para ser visto, fica-se com imagens inverificáveis do género mais baixo, o que é uma consideração extracientífica e pseudo-metafísica da realidade. Apresentada a nossa concepção de géneros e espécies explicativos, emergem duas questões. A concepção é correcta? É verificável, não apenas nas coisas como são conhecidas agora, mas também nas coisas como seriam conhecidas se fossem completamente explicadas? Talvez se possa defender que a concepção é unicamente provável. A noção da sucessão de perspectivas superiores pareceria ser a única maneira de poder unificar ciências logicamente não-relacionadas. A noção de que multiplicidades inferiores coincidentes de ocorrências são sistematizadas por formas superiores pareceria a única maneira de ordens superiores de realidade poderem ser imanentes a ordens inferiores, sem violar as leis clássicas inferiores. As duas noções são complementares, pois a imagem corresponde à multiplicidade coincidente, e a intelecção sobre a imagem apreende as formas que sistematizam a multiplicidade de outro modo coincidente. Por último, as duas noções satisfazem as exigências mais gerais das leis abstractas clássicas, dos esquemas concretos de recorrência, dos resíduos estatísticos, da probabilidade emergente de formas e esquemas superiores e da estrutura metafísica das potências, formas e actos, centrais e conjugados. Além
disso, a concepção não assenta no presente estado das ciências empíricas,
mas sim nas propriedades fundamentais da intelecção. As intelecções
acumulam-se Ora, uma concepção é unicamente provável se enfrenta uma questão sem rodeios e se não se encontram disponíveis visões alternativas. Para além disso, esta probabilidade é, no caso presente, de uma ordem superior. Não diz respeito a uma síntese imaginativa de eventos externos, tal como os sistemas ptolomaico ou copernicano, mas sim ao fundamento interno que é gerador de sínteses imaginativas e unificações sistemáticas sucessivas. Tais sínteses e unificações podem erguer-se e esboroar-se numa perpétua sucessão sem que alterem um elemento que seja das propriedades fundamentais da intelecção, pois essas propriedades fundamentais são o princípio do qual brotaria a perpétua sucessão. Daí que, quanto maior for a familiaridade com a inteligência humana e suas propriedades, mais claro se torna que o nosso desdobramento da noção de perspectiva superior numa teoria dos géneros e espécies explicativas explorou os factores básicos e permanentes que subsistirão em modificações e melhoramentos subsequentes. Por último, essa probabilidade única é suficiente para um teorema metafísico quando a metafísica é concebida de acordo com a definição do capítulo anterior. É que se uma metafísica visa integrar as ciências empíricas e o senso comum de modo a gerar uma visão unitária do universo do ser proporcionado, então tem de lidar com factos. Não pode aceitar os critérios do dedutivismo que se contenta em afirmar as leis necessárias de qualquer mundo possível. É forçosamente matizada; pode não ter dúvidas acerca das potências, formas e actos, centrais e conjugados; mas pode contentar-se com a probabilidade única quando se trata de diferenciar os géneros e as espécies que são explicativos das formas. Resta-nos a questão de facto. Existem, neste universo, coisas que diferem específica e genericamente, quando estas diferenças não são concebidas descritivamente, mas sim explicativamente? A contraposição dita uma resposta negativa pois, nesse caso, a realidade reduz-se a entidades imaginadas e inverificáveis que não diferem inteligivelmente, mas apenas nas suas determinações imagináveis. Por outro lado, se apelamos para as convicções imemoriais do senso comum ou para a divisão actual dos departamentos científicos, toda a evidência favorece a afirmação de diferentes géneros explicativos. Por último, podemos invocar o testemunho de um futuro e hipotético revisor da presente afirmação. É que, se ele for rever aquela ou qualquer outra afirmação, terá de apelar para a experiência, para a compreensão e para o juízo, pelo que ele será uma unidade concreta e inteligível de consciência empírica, inteligente e racional. Para além disso, tem de se pronunciar, não enquanto consciente no interior da configuração biológica, estética, artística, dramática ou prática da experiência, mas enquanto consciente no interior da configuração intelectual; e será capaz de experienciar naquelas outras configurações ou nalguma mistura ou alternância delas pois, caso contrário, não seria humano. Segue-se que, se for humano, o revisor hipotético será mais do que uma unidade concreta e inteligível de consciência empírica, inteligente e racional. Que outra coisa será? Temos de invocar pelo menos um outro género de formas conjugadas para explicar a potencialidade concreta de outras configurações da experiência, para explicar as influências pré-conscientes e subconscientes sobre a consciência, para explicar o facto de o revisor hipotético comer, respirar e caminhar com coisas não humanas. Por outro lado, se o nosso revisor hipotético não for um homem, então teremos sérias dificuldades para conceber um modo de negar a existência de diferentes géneros explicativos. 4.
POTÊNCIA E LIMITAÇÃO Cada género superior é limitado pelo género imediatamente inferior. Por um lado, não deve interferir com a autonomia da ordem inferior pois, se o fizesse, destruiria o seu próprio fundamento. Por outro lado, o género superior é uma sistematização superior de multiplicidades que seriam coincidentes a um nível inferior, e uma sistematização superior é limitada pelas multiplicidades que sistematiza. Uma vez que cada género superior é limitado pelo género imediatamente inferior, segue-se que o género mais baixo fornece um princípio de limitação a todo o domínio do ser proporcionado. Para além disso, este princípio universal de limitação reside na potência do género mais baixo. É que o acto corresponde ao juízo, a forma à intelecção e a potência à experiência do resíduo empírico. Mas o “Sim” do juízo restringe-se à formulação por ele afirmada, e esta formulação resulta de uma intelecção que se restringe à configuração dos dados a ser compreendidos. De acordo com isto, tal como o juízo é limitado pela intelecção e a intelecção pelos dados, também o acto é limitado pela forma e a forma pela potência. Será conveniente introduzir o termo “potência primeira” para denotar a potência do nível mais baixo que fornece o princípio de limitação a todo o domínio do ser proporcionado. Algumas das características da potência primeira são-nos já familiares. É que a potência é o que há para ser conhecido pela experiência intelectualmente configurada do resíduo empírico. O resíduo empírico consiste na individualidade, no contínuo, em lugares e tempos particulares e na divergência não-sistemática face a antecipações teoreticamente fundadas. Uma vez que hão-de ser verificados no género mais baixo do ser proporcionado, todos estes traços do resíduo empírico devem ser atribuídos à potência primeira. No entanto, podemos perguntar se, à luz da ciência contemporânea, a potência primeira tem alguma coisa a ver com a energia. Pode argumentar-se de modo geral que a energia, uma vez que pode ser latente ou potencial, não é acto. Uma vez que é relevante para a mecânica, para a termodinâmica, para o electromagnetismo, para a química e para a biologia, não é forma. Finalmente, uma vez que funciona como um princípio universal de limitação, deve fundar-se na potência primeira. Uma investigação da noção de energia encontra-se fora do âmbito da presente investigação, mas talvez não seja inoportuno colocar algumas questões importantes. Em primeiro lugar, não se atinge a noção de energia pela diferenciação, mas pela integração. Não surpreende que a diferenciação, que é um procedimento abstractivo, gere noções com uma ampla generalidade. A energia é uma noção de extrema generalidade e, contudo, é atingida através da integração. Não se poderia dizer que a quantidade de energia é uma potência primeira concreta e, conforme o caso, informada mecânica, térmica ou electricamente? Também
se verifica o curioso facto de a ciência da mecânica poder ser desenvolvida
logicamente em termos de leis clássicas e sem qualquer menção à energia[2]
e de, no entanto, uma vez introduzida a noção de energia, se poder desenvolver
o método das coordenadas generalizadas de Lagrange e as equações canónicas
de Hamilton, que constituem as técnicas mais poderosas Além disso, embora receba a sua formulação básica em mecânica, a noção de quantidade de energia não se restringe à mecânica. A termodinâmica concebe o calor como uma forma de energia que é por ela limitada através de uma lei de conservação e uma lei que estabelece a direcção das suas alterações (Ibid., págs. 214 e ss.). Max Plank desenvolveu as equações electromagnéticas de Maxwell, começando pela noção de energia (Ibid. págs. 315 e ss.). A função hamiltoniana, que representa a energia total, forneceu pistas básicas à mecânica quântica (Ibid. págs. 405, 145). Existe a libertação e absorção de energia nas alterações químicas e o papel da clorofila na captação da energia da radiação. Referem-se estes factos à potência primeira como princípio universal de limitação? Além disso, existe uma inércia da energia e uma equação que relaciona a massa e a energia. Deve relacionar-se o coeficiente inerte da massa com a potência primeira que ele informa e conceber-se a própria massa como uma forma conjugada que é implicitamente definida pelas leis que relacionam as massas umas com as outras? Por último, foi sugerida uma correlação entre o universo em expansão e a emergência de energia adicional. Se isto chegar a ser aceite, deverá ser explicado por a potência primeira fundar tanto o contínuo espaço-tempo como a quantidade de energia, de modo que um aumento num implique um aumento no outro? Pareceria desejável uma única resposta coerente a todas estas questões, de tal modo que a potência primeira fosse concebida como fundamento da limitação quantitativa e que as considerações heurísticas gerais relacionassem a limitação quantitativa com as propriedades que a ciência verifica na quantidade que denomina energia. 5.
POTÊNCIA E FINALIDADE Concebeu-se heuristicamente o ser como o objectivo do desejo desapegado e desinteressado de conhecer e, mais precisamente, como o que há para ser conhecido pela apreensão inteligente e pela afirmação razoável. Viu-se que esta noção heurística subjaz a todo o nosso conhecimento, penetra todos os conteúdos conceptuais, vai para além destes, fornece um núcleo para todo o sentido. Temos, agora, de formular uma noção recíproca de igual importância. É que não é só a nossa noção de ser que é heurística, que se dirige para um objectivo que só pode ser definido em termos do processo de conhecer, mas também a própria realidade do ser proporcionado exibe uma semelhante incompletude e uma semelhante orientação dinâmica em direcção a uma completude que só se torna determinada no processo de se completar. Tal como a experiência intelectualmente configurada se dirige para as intelecções e para os juízos, também a potência se dirige para as formas e para os actos. Tal como a actividade cognitiva ascende a perspectivas superiores através das acumulações de intelecções, também o processo objectivo implica a informação e a actualização da potência primeira para que se revele um resíduo de multiplicidades coincidentes e, assim, se ascenda através de níveis sucessivos de sistematização superior. Tal como a actividade cognitiva desconhece, à partida, o que o ser é e, portanto, tem de o definir heuristicamente como o que há para ser conhecido pela apreensão inteligente e pela afirmação razoável, também o processo objectivo não é a realização de um plano, mas a acumulação de uma série condicionada de coisas e esquemas de recorrência, de acordo com sucessivas tabelas de probabilidades. Tal como a actividade cognitiva é o ‘tornar-se conhecido’ do ser, também o processo objectivo é o ‘devir’ do ser proporcionado. De facto, uma vez que a actividade cognitiva é uma parte deste universo, o seu dirigir-se para o ser é o caso particular em que o esforço universal em direcção ao ser se torna consciente, inteligente e razoável. É este sentido que associaríamos ao termo ‘finalidade’. De acordo com ele, ‘finalidade’ não significa um expediente de uma inteligência preguiçosa que tenta emendar as deficiências da sua visão da causalidade eficiente. Muito menos significamos com ‘finalidade’ uma força exercida pelo futuro sobre o presente. Com ‘finalidade’, referimo-nos a um teorema de uma generalidade igual à da noção de ser. Este teorema afirma um paralelismo entre o dinamismo da mente e o dinamismo do ser proporcionado. Afirma que o universo objectivo não está em repouso, não é estático, fixo no presente, mas em processo, em tensão, fluido. Uma vez que encara a realidade presente sob o seu aspecto dinâmico, afirma que este dinamismo é aberto. Assim como o que há para ser conhecido só se torna determinado através do conhecer, também o que há-de ser só fica determinado através do devir. E tal como o conhecer presente não é apenas conhecer presente mas também um momento em progresso para um conhecer mais pleno, de igual modo a realidade presente não é apenas realidade presente, mas um momento em progresso para uma realidade mais plena. O fundamento objectivo deste dinamismo aberto é a potência. A potência é o que há para ser conhecido pela experiência intelectualmente configurada do resíduo empírico. A experiência intelectualmente configurada é dinâmica; é experiência conforme a uma estrutura heurística derivada do desejo desapegado e desinteressado de conhecer; é experiência dominada por esse desejo. E, tal como a própria experiência, a orientação dinâmica dessa experiência tem o seu correspondente no ser proporcionado. Uma vez que a actividade cognitiva não é senão uma parte deste universo, o seu esforço para conhecer o ser é a parte inteligente e razoável de um esforço universal em direcção ao ser. Tenho vindo a indicar um paralelo entre o conhecer incompleto que se dirige para um conhecer mais pleno e o universo incompleto que se dirige para um ser mais pleno, e proponho-me agora empregar o termo ‘finalidade’ para denotar o membro objectivo deste paralelo. Talvez venham a existir queixas contra isto. Os imaginativos defenderão que a finalidade se refere a uma força exercida pelo futuro sobre o presente. Os dedutivistas abstractos argumentarão, com Escoto, que a finalidade deve denotar uma propriedade necessária de todo o mundo possível. Os dedutivistas concretos argumentarão, com Espinosa, que a finalidade é apenas um erro: assim como as premissas provam conclusões, também os pássaros, porque têm asas, são capazes de voar; assim como as premissas não existem para provar conclusões, também os pássaros não têm asas para serem capazes de voar. Os kantianos defenderão que a finalidade não é uma lei da natureza, mas uma máxima do pensamento, que não revela um elemento constitutivo das coisas, mas apenas regula e ordena o conhecimento que delas temos. De uma maneira mais simplista, os positivistas sustentarão que, uma vez que é conhecida pela compreensão, a finalidade não pertence ao “real já aí fora”. Por último, os defensores ainda existentes do monismo científico chamarão a atenção para o facto de não haver espaço, no seu universo, para noções que tudo penetram, tais como ‘ser’ e ‘finalidade’, pois a filosofia nada tem para acrescentar à ciência, e a ciência lida apenas com conceitos precisos, e próprios de disciplinas particulares. Em resumo, existem tantas visões da finalidade quantas as filosofias, e nem vale a pena repetir, aqui, as nossas razões para a posição que adoptámos. A preocupação presente deve limitar-se ao trabalho de elaborar as implicações das conclusões anteriores. Porque o real é ser e o ser é tudo o que há para ser conhecido pela apreensão inteligente e pela afirmação razoável, a finalidade não seria real se fosse meramente conhecida como elemento constitutivo do “já aí fora”. Além disso, porque concebemos a metafísica como a estrutura heurística integral do ser proporcionado, temos de restringir, de maneira semelhante, a nossa visão da finalidade. Por último, uma vez que os princípios analíticos diferem das proposições analíticas pela adição de juízos de facto, o nosso conhecimento do ser proporcionado e, por consequência, o nosso conhecimento da finalidade, são conhecimento do que de facto é. De acordo com isto, a nossa questão da finalidade é simplesmente uma questão de compreender correctamente um facto. A finalidade é basicamente, então, o aspecto dinâmico do real. Afirmar a finalidade é discordar da negação eleática da mudança. É negar que este universo seja inerte, estático, acabado, completo. É afirmar o movimento, a fluidez, a tensão, a aproximatividade, a incompletude. É uma afirmação que pode vir a ter implicações no futuro, mas tais implicações são uma outra questão, pois a finalidade é uma afirmação de facto e o facto não pertence ao futuro, mas sim ao presente e ao passado. Por último, o facto em questão não pode ser completamente negado, pois o nosso conhecer é um evento no universo e não é inerte, estático, acabado, completo; pelo contrário, enquanto a nossa experiência for configurada intelectualmente, o nosso conhecer está em progresso; consiste em colocar questões à inteligênca, resolvê-las com intelecções, levantar outras questões para despertar outros intelecções, virar-se para a reflexão e juízo críticos e virar-se, de novo, para uma invetigação que necessitará do controlo de mais uma reflexão crítica. Em segundo lugar, finalidade não significa apenas dinamismo, mas dinamismo direccionado. Não nega nem menospreza factos tais como a entropia, o cataclismo, a morte que sucede a cada nascimento, e a extinção que ameaça toda a sobrevivência. Não dá qualquer opinião acerca do destino último do universo mas insiste em que o quadro negativo não é tudo porque conhece o ser proporcionado como constituído por géneros e espécies explicativos de potências, formas e actos, centrais e conjugados. Sabe que a potência se encontra em direcção dinâmica para a forma, que a forma se encontra em direcção dinâmica para o acto, que as multiplicidades coincidentes do acto se encontram em conexão com a potência para formas superiores. O que essa direcção dinâmica pode vir a revelar, é outra questão. Mas, num certo sentido, a direcção dinâmica tem de ser afirmada. É que a potência, a forma e o acto constituem uma unidade; a potência é pressuposta e complementada pela forma; a forma é pressuposta e complementada pelo acto, e estas relações de pressuposição e complementação implicam um dirigir-se da potência para a forma e da forma para o acto. Em terceiro lugar, o dinamismo direccionado da finalidade não é dedutivista, pois o dedutivismo é um erro. As previsões rigorosas são possíveis, mas a sua possibilidade assenta na sobrevivência de esquemas de recorrência; essa sobrevivência não é necessária, mas apenas provável; e embora a probabilidade exclua a divergência sistemática relativamente a frequências ideais, não exclui a divergência não-sistemática. Em quarto lugar, o dinamismo direccionado da finalidade não é determinado, no sentido mais óbvio da palavra. Não se dirige para um determinado indivíduo, espécie ou género do ser proporcionado. Pelo contrário, o sentido essencial da finalidade é que ela vai para além de tais determinações. A potência dirige-se para a forma, mas também se dirige, para lá desta, para o acto; e dirige-se, para lá do acto, para multiplicidades coincidentes de actos e, através destas, para formas superiores e multiplicidades coincidentes superiores de actos. A finalidade vai para além da miríade de individualidades de género inferior até ao reduzido número de individualidades dos géneros superiores, e vai para além desse reduzido número de individualidades, em ciclos perpétuos de mudança. A finalidade vai para além dos géneros e espécies inferiores até aos géneros e espécies superiores e, se pára em algum género, essa paragem não revela a finalidade, mas sim as limitações que esta se esforça por transcender. Mesmo que alguém faça questão de afirmar que a finalidade não pode ir acima do homem, é suficientemente claro que o desejo irrestrito de conhecer do homem fornece uma prova concreta de que o máximo de possibilidade que se afirma não é o máximo de aspiração. Em quinto lugar, o dinamismo direccionado da finalidade é uma realização efectivamente provável de possibilidades. A potência é uma possibilidade objectiva de forma; a forma é uma possibilidade objectiva de acto; os actos são uma possibilidade objectiva de formas superiores e actos superiores. A realização destas possibilidades é efectivamente provável pois, se se supuserem números suficientes e intervalos de tempo suficientemente longos, a realização de qualquer possibilidade pode ser assegurada. Em sexto lugar, este dinamismo direccionado é realista. Resulta das leis clássicas que se baseiam nas formas, das leis estatísticas que se baseiam nos actos, do processo emergente que se baseia na potência. Não é uma construção que se acrescenta a um universo incompetente para que ele funcione, mas sim um desdobramento das suas implicações imanentes, e que tem que funcionar. Temos tendência a julgar o universo de acordo com padrões antropomórficos. Procuramos a eficiência nas máquinas, a economia no uso de materiais e poder, a segurança nos planos abrangentes, a ausência da doença e da morte, da violência e da dor, do abuso e da repressão, reflectindo os desejos e as aspirações dos nossos corações. Mas as utopias humanas são esquemas de papel. Postulam materiais mais perfeitos no universo do que aqueles com que ele constrói. Supõem que a construção pode ser uma actividade extrínseca, separada do próprio universo. Esquecem-se que eles próprios, todas as suas grandes realizações e as suas ainda maiores esperanças e sonhos não são senão o produto derivado do universo na sua expansão própria, de acordo com a sua inteligibilidade própria. Em sétimo lugar, a finalidade é universal. É tanto a alegria do sucesso quanto a tristeza do falhanço. Deve discernir-se tanto na estabilidade e no progresso quanto nas falsas partidas e nas rupturas. É tanto o sentido da aberração, da corrupção e do declínio quanto o da sanidade, da honestidade e do desenvolvimento. A finalidade é uma inteligibilidade imanente que opera através da probabilidade efectiva da possibilidade. A probabilidade efectiva não tem pretensões de fornecer um universo asséptico de crómio e plástico. As suas tentativas ultrapassarão em muito o número dos seus sucessos, mas as tentativas não são menos uma parte do programa que os sucessos. Além disso, nos assuntos humanos, a finalidade não se propõe governar o mundo à maneira de um jardim-de-infância; propõe-se, sim, esclarecer os homens, ao permitir que as acções destes tenham consequências, de modo a que, através deste amontoar cumulativo de provas, os homens possam aprender; e se uma tribo ou cultura, uma nação ou civilização não aprende, a finalidade não se curvará à adulação e à súplica; deixa que as coisas tomem o seu rumo para que, eventualmente, as tribos e as nações, as culturas e as civilizações possam alcançar o grau de consciência inteligente e racional necessário para levar por diante a tarefa da finalidade que é transcender as limitações. Em oitavo lugar, a finalidade é matizada. Não é uma única fórmula simplista. É tão concreta, tão diferenciada, tão variada quanto os múltiplos seres deste mundo. Cada um tem as suas limitações, a sua incompletude, o seu aspecto dinâmico, a sua tensão, o seu impulso em direcção a um futuro mais pleno. Assim como a noção de ser subjaz a todos os outros conteúdos, e os penetra e vai para além deles, também a finalidade subjaz e penetra e se dirige para além de cada ser que de facto é. Em nono lugar, a finalidade é flexível. Existe o processo de rotina do universo e, ao longo dele, verificam-se as mesmas leis clássicas e estatísticas. Mas o processo de rotina não é uma regra sem excepções. Existem também mudanças; ao longo de tais mudanças, verificam-se as mesmas leis clássicas, mas as leis estatísticas sofrem uma modificação. Nem carecem de significado as mudanças de estado, pois permitem, a longo prazo, a ocorrência de tendências emergentes que começam num determinado conjunto de leis clássicas e acabam na verificabilidade de um outro. Além disso, a tendência emergente é, ela própria, flexível. Tal como a mesma lição pode ser dada de maneiras diferentes; tal como a mesma descoberta pode ser feita de modos diferentes, também o processo emergente, desde a potência até às formas superiores, pode seguir diferentes vias. O exemplo clássico consiste nas experiências de H. Driesch com embriões de ouriço-do-mar: ele descobriu que as distorções violentas do curso inicial da divisão celular eram compensadas por desvios posteriores e opostos no desenvolvimento normal. Por último, ao que parece, existe a flexibilidade principal que surge quando novas combinações coincidentes fornecem os materiais para novas espécies e géneros de sistematização superior. Elaborámos uma noção de finalidade que atribui ao universo do ser proporcionado um dinamismo direccionado que se encontra em paralelo com a estrutura heurística da investigação e reflexão. É uma visão que se enquadra na nossa concepção de metafísica. Se recorremos aos três níveis do nosso conhecer para distinguir a potência, a forma e o acto; se recorremos à individualidade e à semelhança para distinguir as formas centrais e conjugadas; se recorremos às perspectivas superiores para estabelecer os géneros e espécies explicativos; se encontrámos na potência um princípio de limitação, então temos também de reconhecer na própria estrutura heurística uma pista para a natureza do universo proporcionado às nossas capacidades de conhecer. Na raiz de toda a estrutura heurística encontra-se o desejo desapegado e desinteressado e, de modo semelhante, afirmámos a existência um dinamismo direccionado na raiz do processo universal. O puro desejo dirige-se para um objectivo que só se torna conhecido através do seu desdobramento na compreensão e no juízo e, de modo semelhante, o dinamismo do processo universal não é direccionado para uma meta genérica, específica ou individualmente determinada, mas para tudo o que se torne determinado pelo próprio processo, na realização efectivamente provável das suas possibilidades. Por último, do mesmo modo que a nossa noção de metafísica não só inclui a premissa maior que afirma um isomorfismo entre o conhecer e o conhecido, e a premissa menor principal que afirma a estrutura do conhecer, mas também premissas menores subsidiárias fornecidas pela ciência empírica e pelo senso comum, a nossa afirmação da finalidade não assenta simplesmente num paralelo a priori, mas nesse paralelo enquanto apoiado por amplas sequências de factos. O nosso conhecer poderia ser tal como é, ainda que o universo fosse inerte, estático, acabado, completo, ou então dinâmico mas não direccionado, ou dinâmico e direccionado pela necessidade dedutivista, ou dinâmico e direccionado natural ou artificialmente para uma meta determinada. Mas o facto é que este universo não é estático mas sim dinâmico, não é não indireccionado mas sim direccionado, não é dedutivista nem inflexível mas sim a realização efectivamente provável das suas próprias possibilidades. Resta-nos uma última questão. Quem fornece o fundamento objectivo da finalidade? A potência, a forma ou o acto? A resposta é inquestionável, se a finalidade for a direcção imanente ao dinamismo do real. É que o real é dinâmico na medida em que é incompleto, na medida em que é menos do que pode ser. O acto constitui a sua realização; a forma determina o que a realização é; somente na potência se pode discernir o princípio que reporta uma realização determinada a um melhoramento indeterminado. Segue-se que a potência é uma tensão de opostos. Como vimos, é o fundamento da limitação universal; como acabámos de acrescentar, é o fundamento da finalidade que transporta o ser proporcionado sempre para além das limitações actuais. No entanto, isto não significa que a potência seja uma noção contraditória, pois a contradição só surge quando predicados que se excluem mutuamente são atribuídos ao mesmo objecto, sob o mesmo aspecto. Na potência existem, pelo menos, dois aspectos da sua contribuição própria para a constituição do ser proporcionado e, por outro lado, a sua relação com outras contribuições da forma e do acto. A contribuição própria da potência é a limitação, mas a relação da potência com as outras contribuições é geral e indeterminada, e contudo dinâmica e direccionada para tais contribuições. É a indeterminação desse dinamismo direccionado que faz da potência o princípio da tendência para transcender limitações. Em último lugar, se explicámos o que queremos dizer com ‘finalidade’, talvez não seja despropositado acrescentar o que não queremos dizer. No Capítulo 19 colocar-se-á a questão da causalidade eficiente e final. Mas, de momento, não nos preocupamos com tais causas extrínsecas, mas sim com os elementos constitutivos imanentes ao ser proporcionado. De acordo com isto, se algum leitor desejar o paralelo aristotélico da nossa finalidade, não o encontrará no arch ‘oqen ‘h kinhsiV de Aristóteles, nem no seu teloV, mas sim na sua fusiV. É que a finalidade não é principium motus in alio inquantum aliud; não é id cuius gratia; é principium motus in eo in quo est. Uma vez que a noção de desnvolvimento se encontra particularmente sujeita à influência distorsora das contraposições, a nossa consideração da intelecção como actividade não tentou discutir a natureza do método genético. Esta omissão tem de ser agora remediada, e talvez a maneira mais simples de o fazer seja começar por enunciar e exemplificar os princípios do desenvolvimento. Em primeiro lugar, existe o já familiar princípio de emergência. As multiplicidades de algum modo coincidentes de actos conjugados inferiores apelam à integração superior efectuada pelas formas conjugadas superiores. Assim, na nossa consideração dos géneros explicativos, os elementos e os compostos químicos são integrações superiores de multiplicidades de algum modo coincidentes de eventos subatómicos; os organismos são integrações superiores de multiplicidades de algum modo coincidentes de processos químicos; a consciência sensitiva é uma integração superior de multiplicidades de algum modo coincidentes de alterações nos tecidos neuronais; e as intelecções cumulativos são integrações superiores de multiplicidades de algum modo coincidentes de imagens ou de dados. Em segundo lugar, existe o princípio de correspondência. As multiplicidades subjacentes que são significativamente diferentes requerem integrações superiores diferentes. Assim, os elementos químicos diferem uns dos outros pelos seus números atómicos e massas atómicas, e estas diferenças fundam-se na multiplicidade subjacente. Diferentes agregados de agregados de processos químicos implicam organismos diferentes. Os eventos neuronais que ocorrem no olho e no ouvido evocam diferentes experiências de consciência. Dados diferentes conduzem a diferentes teorias. É certo que nem toda a diferença na multiplicidade subjacente exige uma integração diferente; o mesmo tipo de átomo pode ter componentes subatómicas em diferentes níveis de energia; o mesmo tipo de organismo admite diferenças no tamanho, na forma e no peso; as semelhanças de cáracter e temperamento são, provavelmente, compatíveis quanto baste com diferenças neuronais; e alcançar-se a mesma teoria pode partindo de dados dferentes. Do mesmo modo, o princípio de correspondência goza de uma certa medida de flexibilidade; dentro de certos limites, a mesma integração superior sistematizará diferentes multiplicidades; o ponto a salientar no princípio é que estes limites existem, e que transgredi-los significa eliminar a integração superior. Em terceiro lugar, existe o princípio de finalidade. A multiplicidade subjacente é um dinamismo direccionado para cima mas de modo indeterminado, no sentido de uma realização cada vez mais plena do ser. Qualquer realização efectiva irá pertencer a um determinado género e espécie, mas esta determinação é limitação; e toda a limitação é, para a finalidade, uma barreira a transcender. De imediato se segue uma distinção entre integrações superiores estáticas e integrações superiores dinâmicas. Toda a integração superior sistematiza uma multiplicidade de outro modo coincidente, mas a sistematização pode ser efectuada de duas maneiras distintas. É estática quando domina por completo a multiplicidade inferior e, assim, faz surgir uma notável impermeabilidade face à mudança. Assim, os gases inertes encerram multiplicidades coincidentes de eventos subatómicos em rotinas particularmente permanentes. Por outro lado, a integração superior é dinâmica quando se não contenta em sistematizar a multiplicidade subjacente, mas continuamente a aumenta e modifica, até que, de acordo com o princípio de correspondência, a interação existente for eliminada e, de acordo com o princípio de emergência, surja uma nova integração. Em quarto lugar, existe o próprio princípio de desenvolvimento. É a sequência concatenada de integrações superiores dinâmicas. Uma multiplicidade coincidente inicial é sistematizada e modificada por uma integração superior, de modo a evocar uma segunda; a segunda conduz a uma terceira; a terceira à quarta; e assim sucessivamente até as possibilidades de desenvolvimento ao longo de uma dada linha se esgotarem e se atingir a relativa estabilidade da maturidade. Em quinto lugar, o curso do desenvolvimento é marcado por uma diferenciação explanatória crescente. A integração inicial na multiplicidade inicial pertence a um determinado género e espécie; contudo, prestar atenção exclusivamente aos dados no estádio inicial geraria escasso conhecimento, e ainda menor compreensão, do género e espécie relevantes. O que há para ser conhecido pela compreensão é o que ainda está por vir, o que pode estar presente virtual ou potencialmente, mas que ainda não está presente formal ou actualmente. Deste modo, se se atende simplesmente aos dados em cada estádio sucessivo de um desenvolvimento, descobre-se que a integração inicial só pode ser compreendida de modo genérico, que as subsequentes integrações são inteligibilidades cada vez mais específicas, que a diferenciação inteligível específica do último estádio atingido é gerada no processo desde o estádio inicial. Assim, as células iniciais dos diferentes organismos são susceptíveis de diferenças materiais (por exemplo, no número de cromossomas), mas o seu funcionamento não exibe diferenças que sejam comparáveis às ulteriores diferenças no funcionamento. Além disso, pessoas com temperamento e carácter bastante diferentes partiram, enquanto crianças, de casos de consciência sensitiva não apenas muito semelhantes, mas também notoriamente indiferenciados; existiam sensações, mas a perceptividade não estava ainda desenvolvida; nada havia para recordar e os poderes da imaginação eram latentes; os afectos eram instâncias globais de tipo elementar; e as competências limitavam-se ao choro. Por último, o desenvolvimento intelectual tem as raízes no desejo desapegado e desinteressado de conhecer; mas o mero desejo não é conhecimento de uma coisa; conduz a estruturas altamente diferenciadas que são do âmbito da lógica, matemática, ciência natural, senso comum, filosofia e ciência humana; mas estas diferenciações inteligíveis ainda estão por vir e só se dão no e através do processo de desenvolvimento. Em sexto lugar, o curso do desenvolvimento é capaz de uma flexibilidade maior ou menor, na medida em que pode visar o mesmo objectivo último seguindo rotas diferentes. Por outras palavras, embora a multiplicidade inicial com as suas diferenças materiais só possa evocar a integração inicial, ainda assim é suficiente para determinar qual será o objectivo último. Em virtude desta determinação, o curso do desenvovimento pode render-se às circunstâncias e, assim, seguir qualquer uma das sequências concatenadas alternativas pertencentes a um dado conjunto. Assim, um ouriço-do-mar normal pode resultar de um embrião sujeito a pressões deformadoras; a saúde mental pode dever-se à espontaneidade não assistida ou ao acompanhamento psiquiátrico; a mesma ciência pode ser ensinada com sucesso de acordo com diferentes métodos, e a mesma descoberta pode ser feita de diversas maneiras. Em sétimo lugar, o curso do desenvolvimento é capaz de uma flexibilidade maior que consiste numa alteração ou modificação do objectivo último. Em biologia, trata-se do bem conhecido facto da adaptação; na psicologia do inconsciente, pode ser exemplificada pela sublimação; na actividade cognitiva aparece, bastas vezes, no modo como os investigadores começam por um problema e se vêem obrigados, pela lógica das questões, a dedicar-se à solução de um outro. A flexibilidade maior parece entrar em conflito com a flexibilidade menor, pois a primeira implica uma alteração no objectivo, enquanto a segunda assenta na fixidez do objectivo. Contudo, esta diferença é meramente descritiva. Na flexibilidade menor, encontra-se em funcionamento a determinação do desenvolvimento que se funda na multiplicidade inicial. Esta determinação revela a potência como o fundamento da limitação. Mas a potência também é o fundamento da finalidade e, deste ponto de vista, dirige-se para realizações cada vez mais plenas. Além disso, uma integração superior só parcialmente é caracterizada pela sistematização de uma multiplicidade subjacente; é, mais propriamente, a emergência de uma solução para o problema complexo de sistematizar uma multiplicidade coincidente num determinado meio ou contexto; e esta solução consiste num conjunto de formas conjugadas que se relacionam não apenas umas com as outras no seio da integração, mas também, fora da inetgração, com outros casos do mesmo tipo. À luz das considerações precedentes, pode-se definir o desenvolvimento como uma sequência flexível e concatenada de integrações superiores dinâmicas e cada vez mais diferenciadas, que resolvem a tensão de multiplicidades subjacentes sucessivamente transformadas através das aplicações sucessivas dos princípios de correspondência e emergência. Contudo, a fim de que isto não resulte em emaranhado verbal, juntemos à exemplificação das partes da definição algumas exemplificações do todo. Tal como existem elementos químicos estáveis que bloqueiam o caminho para o desenvolvimento, também existem elementos instáveis que facilmente formam compostos. Por seu turno, os compostos podem ser mais ou menos instáveis, e grandes agregados de compostos fornecem uma multiplicidade coincidente de processos que se torna sistemática na célula. No entanto, a célula não estabelece uma integração estática, mas sim dinâmica. Está sempre a assimilar novos materiais e a excretar os que já serviram um propósito. Também não se contenta apenas em manter o equilíbrio deste processo, mas dirige-se para a duplicação do seu padrão dinâmico, e então divide-se. Uma tal divisão pode ser um caso de reprodução ou de crescimento. No primeiro caso, dá-se a multiplicação da vida de várias maneiras. No segundo caso, dá-se o desenvovimento. A integração superior encontra-se a caminho, pois o crescimento não é apenas um aumento no tamanho, mas também aumento na diferenciação; a multiplicidade inicial é progressivamente sujeita a disposições e padrões cada vez mais intrincados; o princípio de correspondência afasta repetidamente as integrações anteriores e, em cada um desses momentos, o princípio da emergência apela a uma integração definitivamente mais diferenciada. A diferenciação inteligível plena é eventualmente atingida, e o desenvolvimento dá lugar à maturidade. Na medida em que o objectivo da sequência genética é fixado pela multiplicidade inicial, só carvalhos nascerão das bolotas. Mas num grande número de casos e ao longo de amplos períodos de tempo, existe uma probabilidade efectiva de multiplicidades iniciais diferentes e, consequentemente, de objectivos diversos para as sequências genéticas. Contudo, o cumprimento de tais objectivos é condicionado pela existência prévia de um ambiente adequado e, inversamente, os ambientes mudam cumulativamente com cada adição de um novo tipo de organismo. Daqui surge um problema do ambiente que é resolvido por uma sequência filogenética de diferentes organismos, em que cada membro anterior pode sobreviver num ambiente menos desenvolvido e contribuir para um mais desenvolvido. Por seu turno, esta solução supõe a possibilidade da flexibilidade maior, pois cada membro anterior tem de emergir num determinado tipo de ambiente e, para sobreviver, tem de ser capaz de se adaptar sucessivamente às mudanças cumulativas produzidas por surgimentos posteriores de novos membros. Por último, atinge-se uma transcendência parcial do ambiente na forma do animal que se desenvolve ao abrigo de um ovo ou útero, que goza de cuidados por parte dos pais, que se pode mover de um lado para o outro, que se encontra equipado para ludibriar ou vencer os inimigos. Tal como existe o desenvolvimento orgânico, também existe o desenvolvimento psíquico. Assim como, no seu crescimento, o organismo tem de reunir e dispor as suas múltiplas células, também o animal, no seu desenvolvimento, tem de incluir a génese e a distribuição padronizada de tecidos neuronais. Assim como a diferenciação dos órgãos materiais funda uma sequência de integrações de funções orgânicas inteigíveis, também a diferenciação e estrutura neuronais fornecem uma base material para uma sequência de formas de consciência sensitiva cada vez mais complexas. Assim como não é na planta, mas sim no animal, que se realizam todas as potencialidades da diversidade orgânica, também não é no animal, mas sim no homem, que se atingem todas as potencialidade de uma consciência sensitiva ricamente diversificada e altamente integrada. Parece existir, na célula isolada, a irritabilidade que, de um modo genérico e altamente rudimentar, prefigura a ulterior sensitividade do tacto. Mas é uma potencialidade que a planta negligencia e o animal explora. Além disso, essa exploração move-se em duas direccções distintas. A multiplicação de terminações nervosas particularizadas funda uma possibilidade de impressões sensíveis cada vez mais diferenciadas e de componentes de movimentos sensitivamente guiados. A hierarquia ascendente dos centros nervosos funda a possibilidade de integrações de impressões cada vez mais notáveis e de coordenações de resposta cada vez mais diversificadas. Sem os cones e os bastonetes, não existe visão. Sem o cérebro, não existe centro no qual convirjam as influências externas e não existe base da qual emanem as respostas integradas. Os dois tipos de desenvolvimento são complementares, e se os animais ultrapassam o homem em acuidade de sentidos ou agilidade de movimentos, o homem ultrapassa-os em poderes de integração. No entanto, o desenvolvimento neuronal fornece apenas a multiplicidade subjacente para o desenvolvimento psíquico. Este último é condicionado pelo primeiro, mas não consiste nem em tecidos neuronais, nem em configurações neuronais, nem em eventos neuronais, mas sim numa sequência de conjuntos de capacidades para a perceptividade, resposta agressiva e afectiva, memória, projectos imaginativos e desempenho hábil e economicamente executado, tudo isto cada vez mais diferenciado e integrado. Apesar de as capacidades terem uma base nalgum correlato neuronal da associação, a distinção entre ambas é posta em relevo pela diferença entre a integração única normal de capacidades e a anormalidade da personalidade múltipla, na qual um único indivíduo exibe, em momentos diferentes, integrações assaz distintas de diferentes características perceptivas, associativas, emotivas, volitivas e operativas. Assim como a célula isolada é de tal modo integrada que se dirige para a duplicação do seu padrão dinâmico e consequente divisão, também a integração superior da consciência sensitiva pode, de uma maneira que não é de todo diferente, interagir com a sua base neuronal de modo a gerar integrações diferentes e incompatíveis. É talvez por a consciência animal se encontrar dominada pelo objectivo biológico que o seu desenvolvimento é mais conspícuo na comparação entre animais diferentes do que no contraste entre o comportamento dos membros jovens e adultos de uma mesma espécie, nos efeitos do treino e nos casos de aprendizagem experimentalmente provocados e registados. Em todo o caso, é no homem que se observa a maior diversidade de perceptividade, de poder imaginativo, de gradação dos afectos e de competências adquiridas. A consciência genérica da criança torna-se diferenciada no processo do viver sensistivo em casa, na escola, no trabalho, e as leis tradicionais do desenvolvimento são o poder do exemplo e a máxima de que a prática conduz à perfeição. No entanto, a ciência relativamente recente da psicologia do inconsciente lançou bastante luz sobre o assunto, e não será despropositado indicar que a nossa definição de desenvolvimento proporciona um esquema que une princípios que de outro modo não estariam relacionados. Assim, a noção de finalidade reune a realização dos desejos e a sublimação um tanto ambígua, segundo Freud, aos símbolos arquetípicos de Jung. A base neuronal inconsciente não intenta nem quer, no sentido próprio dos termos, pois tanto o intentar como o querer são actividades conscientes. Mas a base neuronal inconsciente é um dinamismo direccionado para cima que procura uma realização mais plena, em primeiro lugar, ao nível sensitivo imediato e, em segundo lugar, ao nível artístico, dramático, filosófico, cultural e religioso superior. Daí que uma intelecção sobre símbolos dos sonhos, e sobre as imagens e afectos associados, revele ao psicólogo uma captação das antecipações e virtualidades de actividades superiores, imanentes à multiplicidade inconsciente subjacente. Um fenómeno semelhante, mas a um nível diferente, é-nos oferecido pelo super-ego freudiano: na consciência, é um composto de símbolos preceptivos e afectos submissivos; pela sua finalidade antecipa, pela sua subordinação reflecte, pelas suas tendências obssessivas e expansivas caricatura os juízos da consciência racional acerca da conduta de um ser racional. Além disso, o censor não é um agente nem uma actividade, mas simplesmente uma lei ou regra das interrelações entre níveis sucessivos de integração; a censura construtiva é a admissão à consciência de elementos que entram na integração superior; a censura repressiva é a exclusão, da consciência, de elementos que a integração superior não pode assimilar; o psicanalista que tenta uma educação retrospectiva do seu paciente empenha-se em alargar as potencialidades de integração; e a resistência que o seu paciente oferece é um subproduto da integração que confere a sua peculiar configuração ao que consegue assimilar e contornando o que não consegue. Por último, existem três princípios gerais relevantes para a possibilidade da embriologia dos fenómenos sexuais sensitivos segundo Freud, com os seus estádios sucessivos e os consequentes perigos de suspensão do desenvolvimento, perversão e regressão. O primeiro princípio é que uma integração em desenvolvimento se move do genérico para o específico. O segundo é que a integração não pode preceder o desabrochar da sua multiplicidade subjacente; assim como a acumulação de intelecções sucede às apresentações sucessivas dos dados relevantes, também a integração psíquica tem de suceder aos estádios de desenvolvimento da base orgânica e neuronal. O terceiro princípio é que os graus de liberdade da integração sensitiva decrescem, por assim dizer, à medida que nos movemos dos centros nervosos superiores em direcção às terminações nervosas particularizadas; daí que alguém possa imaginar como lhe apetecer, mas não possa simultaneamente ser normal e ver como lhe apetecer. Segue-se que o lado psíquico do desenvolvimento sexual irá do genérico para o específico, que se dividirá em estádios impostos pelo desenvolvimento somático, que as integrações sensitivas sucessivas têm de satisfazer exigências neuronais cada vez mais determinadas e que, para satisfazer estas exigências, têm de imitar, não o artista ou o matemático ou o filósofo que segue a lógica das posições anteriores, mas sim o cientista ou a pessoa de senso comum que atende, principalmente, a domínios cada vez mais amplos de dados bastante determinados. O principal exemplo da noção de desenvolvimento é, obviamente, a inteligência humana. Uma multiplicidade de outro modo coincidente de dados ou imagens é integrada por intelecções; o esforço para formular sistematicamente o que é captado pela intelecção ou, em vez disso, o esforço por agir em conformidade suscita mais questões, dirige a atenção para outros dados, leva à emergência de mais intelecções, inciando-se, outro trajecto do ciclo do desenvolvimento. Se dermos rédea solta ao desejo desapegado e desinteressado de conhecer, irão sempre surgir novas questões. As intelecções acumulam-se em perspectivas, e as perspectivas inferiores geram perspectivas superiores. Se as imagens são a única base do movimento, desenvolve-se a lógica; se a base é formada por imagens serialmente relacionadas com factos, o desenvolvimento é matemático; se os dados, na sua relação com o viver humano, determinam o círculo, desenvolve-se o senso comum; se nos preocupamos com os dados na sua relação uns com os outros, desenvolve-se a ciência empírica. Por último, se consideramos o próprio círculo de desenvolvimento e a estrutura do que pode ser conhecido do ser proporcionado, o desenvolvimento é filosófico. Em todos estes campos, assim como no crescimento orgânico e no desabrochar psíquico, o desenvolvimento é uma sequência flexível e concatenada de integrações superiores dinâmicas e cada vez mais diferenciadas que resolvem a tensão de multiplicidades subjacentes sucessivamente transformadas, mediante aplicações sucessivas dos princípios de correspondência e emergência. 7.
MÉTODO GENÉTICO No nosso estudo da intelecção como actividade, pudemos indicar as estruturas heurísticas e os procedimentos dos métodos clássico e estatístico. Mas embora empregássemos o método genético ao esboçar o desenvolvimento da matemática, da ciência natural e do senso comum, vimo-nos forçados a não explicar precisamente o que estávamos a fazer. Para remediar este defeito, para revelar a importância heurística da noção de desenvolvimento e para preparar a nossa exposição da estrutura heurística integral do que chamámos ‘metafísica’, devemos dirigir agora a atenção para o método genético. Em primeiro lugar, vamos expor a nossa consideração do assunto; em segundo lugar, iremos clarificar esta consideração, contrastando-a com outras posições. Assim como o método clássico antecipa a especificação de uma correlação não especificada, a determinação de uma função indeterminada, também o método genético encontra a sua noção heurística no desenvolvimento. Na planta, existe o desenvolvimento simples do organismo; no animal, existe o desenvolvimento duplo do organismo e do psiquismo; no homem, existe o desenvolvimento triplo do organismo, do psiquismo e da inteligência. Tornemos mais precisa esta afirmação geral, reformulando-a nos nossos termos metafísicos. 7.1
Noções Gerais Em primeiro lugar, deve afirmar-se de toda a planta, animal ou homem, uma unidade individual e existente. Em virtude da potência central, é individual; em virtude da forma central, é uma unidade, uma identidade, um todo; em virtude do acto central, é existente. Em segundo lugar, para além da potência, forma e acto, centrais, existem potências, formas e actos, conjugados. Além disso, a potência, forma e acto, centrais, são constantes ao longo do desenvolvimento; é a mesma unidade individual e existente que se desenvolve orgânica, psíquica e intelectualmente; e, por isso, o desenvolvimento tem de ser formulado em termos de potência, forma e acto, conjugados. Em
terceiro lugar, os actos conjugados são ocorrências, eventos, Em quarto lugar, as formas conjugadas são definidas implicitamente por correlações explicativas empiricamente estabelecidas. Ora, tal como a forma conjugada ‘massa’ foi alcançada por Newton, ao ter reduzido o esquema de recorrência planetário de Kepler às suas leis abstractas de movimento e gravitação, também as formas conjugadas do organismo, psiquismo e inteligência serão descobertas, partindo dos esquemas de recorrência orgânica, psíquica e intelectual, em direcção às correlações subjacentes. Em ambos os casos, discerne-se primeiro uma regularidade de eventos e, depois, avança-se para a relação abstracta que (1) se verifica nos eventos; (2) define implicitamente a especificação explicativa dos eventos, e (3) fixa, através da relação destes uns com os outros, as formas conjugadas. De modo inverso, uma vez conhecidas as correlações, é possível elaborar listas de possíveis esquemas de recorrência; partindo das leis de Newton, pode-se chegar à explicação laplaciana da periodicidade planetária; partindo de uma compreensão do organismo, pode-se chegar a conclusões acerca do comportamento em determinadas circunstâncias; a partir de uma consideração sistemática da intelecção, podem-se estabelecer os procedimentos do matemático, do cientista natural e do homem do senso comum. Em quinto lugar, o paralelismo anterior é altamente abstracto. Assenta na conexão entre a formulação e o juízo, entre a lei e o evento, entre a forma conjugada e o acto conjugado. Mas, bem mais conspícuas que o paralelismo são as diferenças entre, por um lado, a física e, por outro, a biologia, a psicologia e a teoria intelectual. Os eventos físicos regulares têm tendência para dar-se de acordo com um único e determinado esquema de recorrência. Mas os eventos orgânicos, psíquicos e intelectuais são recorrentes, não na forma de esquemas únicos, mas sim na forma de círculos de domínios de esquemas. Isto não é tudo. Existe o facto do desenvolvimento. Ao longo do tempo, as formas conjugadas avançam da indeterminação genérica para uma perfeição específica. Concomitantemente, o círculo flexível de esquemas de recorrência altera-se e expande-se. As operações que, inicialmente, eram impossíveis ou extremamente inadaptadas ou ineficientes tornam-se possíveis, espontâneas, económicas, rápidas e efectivas. As massas e as cargas eléctricas, os átomos e as moléculas, são estaticamente sistemáticos; o seu desempenho não é em função da sua idade; não há uma lei da gravitação diferente para cada século. Por outro lado, desenvolvimento orgânico, psíquico e intelectual implicam uma sucessão de estádios; e, devido a essa sucessão, o que antes era impossível torna-se possível, e o que antes era inadaptado e ineficiente torna-se numa rotina disponível. A criança não consegue andar nem falar, e todos nós, em tempos, fomos crianças. Assim, enquanto o físico ou o químico procura determinar conjuntos únicos de formas conjugadas e os consequentes esquemas de recorrência, o biólogo, o psicólogo ou o teórico intelectual procuram determinar sequências genéticas de formas conjugadas e as consequentes sequências de círculos flexíveis de esquemas de recorrência. Em sexto lugar, segue-se daqui a notória diferença entre o método clássico e o genético. O método clássico preocupa-se em reduzir eventos regulares a leis. O método genético preocupa-se com sequências em que as correlações e as regularidades mudam. De acordo com isto, o objectivo principal do método genético é dominar a própria sequência; é compreender o desenvolvimento e, assim, ir das correlações e regularidades de um estádio até às do seguinte. Se um exemplo matemático é útil e não demasiado deslocado, poder-se-ia dizer que o método genético preocupa-se com uma sequência de operadores que, a partir de uma função inicial, geram sucessivamente outras funções. Em sétimo lugar, assim como o pressuposto heurístico do método clássico é a função indeterminada a ser determinada, o pressuposto heurístico do método genético reside na noção de desenvolvimento. Além disso, tal como o método clássico determina as suas funções através dos procedimentos particulares de medição e ajuste de curvas e dos procedimentos gerais de invocação de equações diferenciais e de princípios de invariância e equivalência, também o método genético determina o curso de um desenvolvimento através da acção em tesoura dos procedimentos particulares e gerais. Os procedimentos gerais estão implícitos na própria noção de desenvolvimento. Como já foi mencionado, um desenvolvimento parte da indeterminação genérica em direcção à perfeição específica. Devido à indeterminação genérica inicial, todos os funcionamentos orgânicos aumentam em semelhança à medida que retrocedemos aos seus estádios iniciais. De modo inverso, devido à perfeição específica crescente, o desenvolvimento psíquico é uma questão de estabelecimento do carácter, da fixação do temperamento, da aquisição e aperfeiçoamento das competências. Tanto a bolota como o carvalho estão vivos; tanto a criança como o adulto percepcionam e respondem; mas existem grandes diferenças entre o viver e o percepcionar iniciais e os posteriores, e as diferenças consistem em transições da potencialidade genérica para a determinação específica. Além desta direcção geral do desenvolvimento, existe também o seu modo geral de operação. A sequência de formas conjugadas é uma sequência de integrações superiores de multiplicidades inferiores de eventos, de algum modo coincidentes. Esta sequência é inteligível, na medida em que cada integração superior sucessiva modifica a multiplicidade inferior por ela sistematizada, de modo a evocar a integração superior que vem a seguir na sequência. Assim, se a multiplicidade inferior de eventos pode ser identificada com a potência conjugada, o modo de operação do desenvolvimento é uma interacção circular de potência, forma e acto. Na multiplicidade coincidente emergem formas conjugadas correspondentes; de acordo com as formas conjugadas, ocorrem operações recorrentes de acordo com o círculo flexível de domínios de esquemas que as formas tornam possíveis e efectivos; das operações resulta, não apenas a sistematização superior da multiplicidade inferior, mas também a sua transformação em materiais para a integração superior que vem a seguir na sequência. Para além da direcção geral do desenvolvimento e do modo geral de operação deste, existe a terceira consideração geral, que é a do campo em que ocorre. Este campo pode ser descrito, em termos metafísicos, como a finalidade – o dinamismo direccionado para cima – do ser proporcionado. Mas, em termos das implicações do método científico, o campo pode ser descrito, mais precisamente, como uma probabilidade emergente generalizada. É a probabilidade emergente que fornece as multiplicidades coincidentes de eventos iniciais, nas quais emergem as formas conjugadas superiores. É a probabilidade emergente que proporciona as séries compostas e condicionadas de coisas e de esquemas de recorrência, de modo a que o organismo, o psiquismo ou a inteligência em desenvolvimento tenham um ambiente em que possam funcionar com êxito. É por relação a este campo de probabilidade emergente que a sequência genética goza de uma dupla flexibilidade: uma flexibilidade menor que alcança o mesmo objectivo seguindo caminhos diferentes, e uma flexibilidade maior que altera o objectivo em consequência da adaptação às mudanças ambientais. Não só as formas conjugadas emergem em multiplicidades coincidentes de eventos inferiores; não só os círculos flexíveis de esquemas de recorrência resultam das formas conjugadas, como também as operações, de acordo com os esquemas, (1) estão ligadas a ocorrências fora do organismo, do psiquismo, da inteligência; (2) efectuam a sistematização superior da multiplicidade química, neuronal ou psíquica inferior; e (3) transformam a multiplicidade inferior a ponto de evocar a emergência das formas conjugadas seguintes, que irão gerar novos esquemas que permitirão ao sujeito em desenvolvimento funcionar, no seu ambiente, em direcção a um desenvolvimento cada vez maior. Para além das precedentes determinações do desenvolvimento em geral, existem as características especiais do desenvolvimento simples do organismo, do desenvolvimento dúplice no animal e do desenvolvimento triplo no homem. O físico não consegue chegar às leis da natureza, se considerar apenas as equações diferenciais e os princípios de invariância e equivalência; também tem de recorrer às técnicas mais concretas da medição e do ajuste de curvas. De modo semelhante, o biólogo, o psicólogo e o teórico da inteligência têm de operar, não apenas à luz de uma noção geral de desenvolvimento, mas também de acordo com directivas mais especializadas. Em consequência, a nossa primeira observação tem de ser negativa. O extraordinário sucesso das ciências físicas levou, naturalmente, os investigadores do organismo, do psiquismo e da inteligência a uma adopção servil, e não inteligente, de procedimentos bem sucedidos. Em física e em química, a medição é uma técnica básica que desloca a investigação das relações das coisas com os nossos sentidos para as relações destas umas com as outras. Mas quando se ascende às integrações superiores do organismo, do psiquismo e da inteligência, descobre-se que a medição perde importância e eficácia. Perde importância, pois a integração superior é, dentro de certos limites, independente das quantidades exactas da multiplicidade inferior que sistematiza. Além disso, quanto mais elevada é a integração, maior é a independência face às quantidades inferiores: o significado dos nossos sonhos não é função do nosso peso, e os nossos dotes para a matemática não variam com a nossa altura. Além desta perda de importância, há também uma perda de eficácia. O método clássico pode seleccionar de entre as funções que resolvem as equações diferenciais, recorrendo a medições e curvas empiricamente estabelecidas. A equação diferencial está para o método clássico, tal como a noção geral de desenvolvimento está para o método genético. Mas, embora a equação diferencial seja matemática, a noção geral de desenvolvimento não o é. Segue-se que, embora a medição seja uma técnica eficaz para encontrar condições-limite que restringem as equações diferenciais, não possui qualquer eficácia assinalável, quando se trata de particularizar a noção geral de desenvolvimento. 7.2
Desenvolvimento Orgânico Como se deve, então, investigar um caso concreto de desenvolvimento? Temos de seguir os cientistas bem sucedidos, físicos e químicos, mas temos de imitá-los de modo inteligente e não servil. Eles empregam intelecções de um tipo determinado, a saber, as intelecções do matemático e do ajustador de curvas, quando captam uma possível lei, num agregado de medições. O estudioso do desenvolvimento também deve empregar a intelecção, mas não deve restringir-se aos tipos particulares que são relevantes para a física e a química. Pelo contrário: tem de elaborar as suas próprias estruturas de intelecções acumuladas e, decerto, estruturas diferentes para o estudo do organismo, do psiquismo e da inteligência. O estudo de um organismo começa com a coisa-para-nós, com o organismo enquanto exibido aos nossos sentidos. Um primeiro passo é a diferenciação descritiva das diferentes partes e, uma vez que a maioria das partes estão no interior, este preliminar descritivo necessita de dissecação ou anatomia. Um segundo passo consiste na acumulação de intelecções que relacionam as partes descritas com eventos, ocorrências e operações orgânicas. Mediante estas intelecções, as partes tornam-se conhecidas enquanto órgãos, e o conhecimento posterior, constituído pelas intelecções, é uma captação das inteligibilidades que: (1) são imanentes às diversas partes; (2) reportam cada parte ao que esta pode fazer e, sob determinadas condições, ao que irá fazer; (3) relacionam a capacidade-para-o-desempenho de cada parte com as capacidades-para-o-desempenho das outras partes. E assim, a fisiologia sucede à anatomia. Um terceiro passo é efectuar a transição da coisa-para-nós para a coisa-em-si, das intelecções que captam as partes descritas como órgãos para as intelecções que captam as formas conjugadas que sistematizam multiplicidades de algum modo coincidentes de processos químicos e físicos. Com esta transição a fisiologia liga-se à bioquímica e à biofísica. Para este fim, têm de se inventar imagens simbólicas adequadas dos processos químicos e físicos relevantes; nestas imagens, têm de se captar, através da intelecção, as leis do sistema superior explicadoras das regularidades que se encontram para além do domínio da explicação química e física; a partir destas leis, tem de se construir o círculo flexível de esquemas de recorrência, em que o organismo funciona; por último, este círculo flexível de esquemas deve coincidir com o conjunto relacionado de capacidades-para-o-desempenho, que foi previamente captado nos órgãos apresentados aos sentidos. Os três passos precedentes – anatomia, fisiologia e transposição destas para a coisa-em-si – revelam um aspecto do organismo enquanto sistema superior numa multiplicidade subjacente de células, processos químicos e mudanças físicas. Chamemos a esse aspecto o ‘sistema superior enquanto integrador’. O sistema superior é, em si, o conjunto das formas conjugadas. Enquanto integrador, este conjunto está relacionado (1) com os órgãos examinados, enquanto conjunto de funções captadas, pelo fisiólogo, nos dados sensíveis; (2) com a multiplicidade física, química e citológica, enquanto conjugados definidos implicitamente pelas correlações que explicam as regularidades adicionais na multiplicidade de algum modo coincidente; e (3) com as actividades imanentes e transitivas do organismo no seu ambiente, enquanto fundamento do círculo flexível de domínios de esquemas de recorrência. Contudo, o organismo cresce e desenvolve-se. Em qualquer estádio de desenvolvimento, o seu sistema superior não é apenas um integrador, mas também um operador, isto é, integra de tal modo a multiplicidade subjacente que evoca, em virtude dos princípios de correspondência e emergência, a sua própria substituição por um integrador mais específico e efectivo. A diferença entre o sistema superior enquanto integrador e o sistema superior enquanto operador pode ser exemplificada de um modo assaz simples. Há uma interligação bem conhecida das partes orgânicas que permite ao biólogo reconstruir um organismo através do exame, por exemplo, dos respectivos ossos. Ora, esta interligação simultânea das partes assenta no sistema superior enquanto integrador: as formas conjugadas relacionam-se umas com as outras, mas também emergem dns partes orgânicas; segue-se que as partes relacionam-se umas com as outras e que, através dessas relações, o todo pode ser reconstruído a partir da parte. Mas, para além da interligação simultânea, existe a interligação sucessiva. Assim como o dinossauro pode ser reconstruído a partir do fóssil, também um determinado estádio no desenvolvimento do todo se pode tornar a base sobre a qual se podem reconstruir estádios anteriores ou posteriores; e nesta reconstrução no tempo, a premissa maior da inferência é fornecida pelo sistema superior enquanto operador. O que é o operador? Não me estou a referir, obviamente, a uma entidade matemática, muito embora exista um pormenor extremamente importante nesta analogia matemática. É que um operador matemático transforma uma função noutra; o sistema superior enquanto integrador corresponde a um conjunto de formas conjugadas, de leis de tipo clássico, de domínios alternativos de esquemas de recorrência; e o sistema superior enquanto operador efectua a transição de um conjunto de formas, leis e esquemas para outro. De acordo com isto, embora o desenvolvimento possa ser extremamente regular, tal regularidade não deve ser confundida com a regularidade que se conforma à lei clássica; é a regularidade superior da tendência emergente que sucessivamente se conforma a diferentes conjuntos de leis clássicas. Ainda assim, o que é o operador? É, em geral, o dinamismo direccionado e ascendente do ser proporcionado, que denominámos finalidade. É condicionado pela instabilidade na multiplicidade subjacente, pela incompletude na integração superior, pela imperfeição na correspondência entre ambas. É constituído na medida em que o sistema superior não apenas sofre, como provoca a instabilidade subjacente; na medida em que a incompletude do sistema superior consiste num carácter genérico, rudimentar e indiferenciado que pode tornar-se diferenciado, efectivo, específico; na medida em que a imperfeição da correspondência está, por assim dizer, sob o controlo de e se move em direcção a um limite, em que os princípios de correspondência e emergência dão azo à substituição da integração anterior por um sucessor mais desenvolvido; na medida em que tais operadores formam uma série flexível, ao longo da qual o organismo avança do funcionamento genérico da célula inicial para o círculo flexível de domínios de esquemas da maturidade. Como é que se estuda este operador? Toda a aprendizagem é uma questão de dados e intelecção, de hipótese e verificação. A dificuldade do estudo do operador reside na complexidade dos seus dados. Já delineámos o procedimento (1) do exame e descrição das partes do organismo dissecadas, (2) da captação, nas partes, de funções ou capacidades-para-o-desempenho, (3) do interrelacionamento destas funções umas com as outras, para determinar o círculo flexível de domínios de esquemas de recorrência, e (4) da substituição das colónias de células (órgãos) examinadas pelas suas multiplicidades físicas e químicas subjacentes. Ora,
este procedimento pode ser duplicado para cada um dos estádios sucessivos no
desenvolvimento do mesmo organismo, e a justaposição do duplo conjunto de
resultados ilustra o sentido do estudo comparativo. Comparam-se sucessivos estádios
de orgãos, sucessivas capacidades de orgãos sucessivos, sucessivas integrações
de capacidades, sucessivas multiplicidades físicas e químicas. Prossegue-se
contrastando sucessões normais e anormais, notando semelhanças e diferenças
nas sucessões de espécies e subespécies diferentes, formando uma explicação
das várias economias, nas quais algumas partes se desenvolvem antes de outras,
algumas são permanentes e outras transitórias, umas avançam num certo ritmo e
outras noutro. A totalidade dessa informação constitui os dados relativos ao
operador. O segundo passo é compreender os dados. Ora, a compreensão é
procurada metodicamente através de uma estrutura heurística, e a estrutura
heurística relevante é ‘Especifica o operador!’. Em geral, o
desenvolvimento é o sistema superior Pode-se
clarificar o assunto através de um exemplo. Parece existir um princípio geral
de desenvolvimento a que se chama ‘lei do efeito’. Esta afirma que o
desenvolvimento ocorre segundo linhas de funcionamento bem sucedido. Assim, uma
árvore na floresta não lança os ramos e as folhas para os lados, mas sim para
o seu topo. Ora, tal princípio fornece uma especificação do operador. O
operador é o sistema superior 7.3 Desenvolvimento Psíquico e Intelectual Basicamente, aplica-se a mesma estrutura heurística ao estudo do psiquismo e da inteligência. Mas aqui, estamos perante desenvolvimentos duplos e triplos. No animal, há o desenvolvimento psíquico que sobrevém ao desenvolvimento orgânico. No homem, há o desenvolvimento intelectual que sobrevém ao psíquico e o psíquico que sobrevém ao orgânico. Além disso, existe uma importante diferença na acessibilidade dos dados. No organismo, tanto a multiplicidade subjacente como o sistema superior são inconscientes. No desenvolvimento intelectual, tanto a multiplicidade subjacente de apresentações sensíveis como o sistema superior de intelecções e formulação são conscientes. No desenvolvimento psíquico, a multiplicidade neuronal subjacente é inconsciente e o sistema superior superveniente é consciente. Por último, quanto maior é o nível de integração, maior é a liberdade face à limitação material, mais dominante é o aspecto dinâmico e expansivo do operador, mais significativas são as leis do próprio desenvolvimento, não apenas no nível superior, mas também nos níveis subordinados. Assim, a diferenciação orgânica atinge o seu máximo nos animais, e a diferenciação psíquica atinge o seu máximo no homem. A multiplicidade subjacente imediata do desenvolvimento psíquico consiste em eventos e processos do sistema nervoso. Este sistema implica um núcleo central com ramificações aferentes e eferentes. É simultaneamente uma parte do organismo e a sede da multiplicidade de eventos que são integrados superiormente nas percepções e respostas conscientes. O desenvolvimento psíquico é essa integração superior em movimento, e o movimento dá-se em duas direcções distintas, mas complementares. Pode-se chamar ‘movimento lateral’ a uma cada vez maior diferenciação dos eventos psíquicos, em correspondência com os nervos aferentes e eferentes particulares. Pode-se chamar ‘movimento vertical’ a uma cada vez maior proficiência na percepção integrada e na resposta apropriada e coordenada. O limite do movimento lateral é estabelecido pela multiplicidade e diversidade das terminações nervosas. O limite do movimento vertical é estabelecido (1) pelo conjunto operacionalmente significativo da combinação de diferentes terminações nervosas, e (2) pela existência de centros neuronais superiores, nos quais tais combinações podem ser integradas e coordenadas. O estudo do comportamento animal, do estímulo e resposta, revelaria, em qualquer estádio de desenvolvimento, um círculo flexível de domínios de esquemas de recorrência. Estariam implícitas, num tal círculo de esquemas, correlações de tipo clássico. Nessas correlações estariam implícitas as formas conjugadas que (1) explicam a perceptividade habitual de determinados tipos e modos habituais de resposta agressiva e afectiva, e (2) pareceriam ser emergentes nas configurações ou disposições neuronais subjacentes, tal como as intelecções são emergentes nas imagens e as funções nos órgãos. Enquanto
tal estudo revelaria o sistema superior enquanto integrador num dado estádio de
desenvolvimento, o estudo comparativo dos estádios sucessivos, das sucessões
normais e anormais, das semelhanças e diferenças das sucessões em diferentes
espécies, subespécies e géneros, e da economia geral da progressiva
diferenciação específica, forneceria os materiais a ser compreendidos pela
captação da natureza do sistema superior enquanto operador. Ao leitor é já familiar o desenvolvimento intelectual. A multiplicidade inferior de algum modo coincidente é fornecida pelas apresentações sensíveis e pelas representações imaginativas. De acordo com o princípio de correspondência, as intelecções emergem para unificar e correlacionar elementos no fluxo sensível; para fundamentar a formulação de tais unificações e correlações em conceitos, pensamentos suposições, considerações, definições, postulados e teorias; e para, através dessas construções conceptuais ou das suas expansões dedutivas ou da sua implementação concreta, dar origem, mais cedo ou mais tarde, a outras questões. É evidente que, assim como a construção conceptual é o sistema superior formulado enquanto integrador, também a emergência da nova questão efectua a sua transição para o operador. É que novas questões conduzem a novas intelecções, levantando, desta forma, novas questões. Assim, as intelecções acumulam-se em pontos de vista, e os pontos de vista inferiores conduzem a pontos de vista superiores. Tal é o círculo do desenvolvimento da compreensão, que ocorre nas diferentes disciplinas da lógica, matemática, ciência, senso comum e filosofia, de acordo com as diferenças na rota do círculo. Há duas peculiaridades do desenvolvimento intelectual que merecem atenção. Por um lado, existe a sua excepcional liberdade face à limitação. O sistema superior do organismo ou do psiquismo desenvolve-se numa multiplicidade material subjacente de eventos físicos, químicos e citológicos, que estão sujeitos às suas próprias leis. O sistema superior da inteligência não se desenvolve numa multiplicidade material, mas sim na representação psíquica das multiplicidades materiais. Por conseguinte, o sistema superior de desenvolvimento intelectual é primariamente a integração superior, não do homem em que o desenvolvimento ocorre, mas do universo que este examina. Por outro lado, juntamente com esta liberdade face à limitação, o desenvolvimento intelectual possui um excepcional princípio de controlo. O organismo ou o psiquismo justifica, pelo seu êxito pragmático, o sistema superior em que se torna. Embora o critério pragmático também seja empregue pela inteligência, ainda assim a sua disponibilidade encontra-se comummente confinada ao imediato e às questões superficiais. O critério próprio da inteligência reside na capacidade desta para a reflexão crítica, para a apreensão do incondicionado, para a determinação das normas das investigações que se dirigem para o incondicionado e que são, por conseguinte, prováveis. 7.4
Desenvolvimento Humano Resta-nos falar do desenvolvimento total no homem. O desenvolvimento orgânico, psíquico e intelectual não são três processos independentes. Encontram-se interligados, o intelectual efectuando uma integração superior do psíquico, e o psíquico efectuando uma integração superior do orgânico. Cada nível tem as suas próprias leis, o seu círculo flexível de esquemas de recorrência, o seu conjunto interligado de formas conjugadas. Cada conjunto de formas encontra-se numa correspondência emergente com multiplicidades de algum modo coincidentes de níveis inferiores. Deste modo, uma única acção humana pode envolver uma série de componentes – físicos, químicos, orgânicos, neuronais, psíquicos e intelectuais – e os vários componentes ocorrem de acordo com as leis e os esquemas realizados dos respectivos níveis. No entanto, embora as leis físicas e químicas sejam estáticas, as correlações superiores pertencem a sistemas em movimento, e daqui resulta, obviamente, o problema de formular a estrutura heurística da investigação deste desenvolvimento triplamente composto. Aquilo que o existencialista descobre e acerca do qual fala, o que o asceta tenta levar a cabo em si mesmo, o que o psiquiatra se esforça por alimentar noutrém, o que o psicólogo procura compreender por completo – eis o que o metafísico delineia com categorias heurísticas. Em primeiro lugar, então, o homem é, em qualquer estádio do seu desenvolvimento, uma unidade individual e existente, diferenciada pelos seus conjugados físicos, químicos, orgânicos, psíquicos e intelectuais. As formas conjugadas orgânicas, psíquicas e intelectuais fundam círculos flexíveis de domínios de esquemas de recorrência correspondentes, que se revelam no comportamento espontâneo e efectivo do homem, nos seus movimentos corporais, nas suas relações com pessoas e coisas, no conteúdo da sua fala e escrita. Além disso, se desviamos a nossa atenção do comportamento exterior para a experiência interior, verificamos que esta assume padrões diferentes consoante nos entregamos a diferentes tipos de actividade; a absorção em questões intelectuais tende a eliminar as emoções e volições sensitivas e, de modo inverso, a absorção mística tende a eliminar o fluxo de apresentações sensitivas e representações imaginativas; além disso, a experiência estética e o padrão da actividade prática têm tendência para ser mutuamente exclusivos; enfim, embora o padrão dramático de uma pessoa lidando com outras pessoas mobilize todos os seus recursos, no entanto subdivide-se, tal como as camadas sucessivas de uma cebola, numa série de zonas, desde o ego ou moi intime até ao limite exterior da persona – de modo que somos reservados com pessoas estranhas, corteses para com os conhecidos, estamos à vontade com os nossos amigos, desabafamos ocasionalmente com as pessoas que nos são mais íntimas, reservamos só para nós alguns assuntos e até nos recusamos a enfrentar outros. Em
segundo lugar, o homem desenvolve-se. O que quer que ele seja neste momento, nem
sempre assim o foi e, falando de modo geral, não é necessário que assim
permaneça. Os círculos flexíveis de domínios de esquemas de recorrência
alteram-se e expandem-se, uma vez que os conjugados neuronais, psíquicos e
intelectuais pertencem a sistemas Em terceiro lugar, existe uma lei de integração. A iniciativa para o desenvolvimento pode ser orgânica, psíquica, intelectual ou externa, mas o desenvolvimento permanecerá fragmentário até ser satisfeito o princípio de correspondência entre níveis diferentes. Assim, a iniciativa pode ser orgânica, pois o organismo é um dinamismo direccionado ascendente que procura uma maior plenitude, evocando a sua integração superior ao suscitar imagens e sentimentos psíquicos. É assim que o homem é impelido a acordar e a dormir, a comer e beber, a procurar a sombra no Verão e a lareira no Inverno, a amar e gerar filhos e a cuidar deles; e estas actividades psíquicas, sensitivas e corporais, por sua vez, apelam ao surgimento da família e da tecnologia, da economia e da organização política, da moralidade e do direito. Além disso, a iniciativa pode ser psíquica, pois a sensitividade humana não só reflecte e integra a sua base biológica, como também é em si mesma uma entidade, um valor, um viver e desenvolver-se. A intersubjectividade, o companheirismo, o jogo e a expressão artística, as horas de lazer passadas com quem estamos à vontade, os propósitos em comum, o trabalho, a realização, o insucesso, o desastre, a partilha de sentimentos na alegria e no lamento – tudo isto são coisas humanas e, nelas, o homem funciona, primariamente, de acordo com o desenvolvimento da sua perceptividade, das suas respostas emocionais, dos seus sentimentos. Em terceiro lugar, a iniciativa pode ser intelectual; a sua raiz é um problema; procuramos compreender, julgar, decidir, escolher. Por último, a iniciativa pode emergir de uma mudança nas nossas circunstâncias materiais, na perceptividade ou sentimentos de outrém, nas descobertas feitas por outras mentes e nas decisões tomadas por outras vontades. Ainda assim, uma coisa é o início de um desenvolvimento, outra o seu acabamento integrado. Se alguém se adapta à mudança externa apenas por deferência para com a necessidade material ou pressão social, o comportamento da persona exteriorizada é modificado de uma maneira que, na melhor das hipóteses, é tolerada pelo sujeito. Ademais, se alguém toma uma excelente resolução acerca do seu modo ou estilo de comportamento, essa resolução permanecerá estéril se a perceptividade e sentimentos adequados não estiverem prontos a surgir ou se não se souber como suscitá-los. De modo inverso, um desenvolvimento pode começar nos sentimentos e perceptividade de uma pessoa, mas permanecerá frustrado se não conseguir compreender-se a si própria, planear a estratégia e executar as tácticas que asseguram o companheirismo e o emprego condizentes. Enfim, a base neuronal não-consciente pode emitir os sinais que expressam uma afectividade carente ou outras exigências de uma vida mais plena, mas os sinais precisam de um intérprete, e o intérprete de um discípulo inteligente e disposto. A lei de integração é, pois, afirmação do que se pretende dizer com ‘desenvolvimento humano’. Dado que o homem é uma unidade, o seu desenvolvimento apropriado é apenas iniciado quando um novo esquema de recorrência se estabelece no seu comportamento exteriorizado, no seu pensar e querer, na sua perceptividade e sentimento, na base orgânica e neuronal da sua acção. De modo geral, esse início de desenvolvimento convida a ajustes e avanços complementares e, se estes não forem efectuados, das duas uma: ou o desenvolvimento iniciado retrocede e atrofia em prol da unidade dinâmica do sujeito, ou essa unidade é sacrificada e deformada, para fazer do homem um mero depósito de esquemas de recorrência e modos de comportamento não-relacionados e não-integrados. Em quarto lugar, existe uma lei de limitação e transcendência. Por um lado, o desenvolvimento é do sujeito e no sujeito; por outro, é a partir do sujeito tal como é e em direcção ao sujeito tal como há-de ser. Concebeu-se a finalidade como um dinamismo direccionado ascendente do ser proporcionado, mas não deterministicamente direccionado. A sua realização pode ser regular, mas a regularidade não se dá de acordo com leis, com uma espontaneidade estabelecida, um hábito adquirido ou esquemas de recorrência existentes; pelo contrário, ela é uma mudança nas leis, na espontaneidade, no hábito, no esquema; é o processo de introdução e estabelecimento de uma nova lei, espontaneidade, hábito ou esquema. O seu ponto de partida é necessariamente o sujeito tal como é dado ser; mas a sua direcção é contrária a que ele permaneça como é; e, embora o seu termo o enrede na tentação da repetição e recorrência inertes, o sujeito só pode atingir esse termo, libertando-se da inércia do estádio anterior. Ora, a tensão inerente à finalidade de todo o ser proporcionado torna-se, no homem, uma tensão consciente. A perceptividade presente há-de alargar-se, não sendo o alargamento perceptível pela perceptividade presente. Os desejos e medos presentes têm de ser transformados, e a transformação não é desejável pelo desejo presente, mas é temida pelo medo presente. Para além disso, como já foi notado, o organismo atinge a sua maior diferenciação na integração psíquica do animal, e o psiquismo atinge a sua maior diferenciação na integração intelectual do homem. Uma vez que é bem mais abrangente e imbricado no homem do que nos outros animais, o desenvolvimento psíquico encontra-se nele envolvido numa tensão mais prolongada e sujeito a crises mais agudas e diversificadas. A questão possui um outro aspecto mais profundo. O desenvolvimento intelectual assenta na predominância de um desejo desapegado e desinteressado de conhecer. Revela ao homem um universo de ser, no qual ele não é senão um elemento, e uma ordem universal, na qual os seus desejos e medos, o seu gozo e angústia, não são senão componentes infinitesimais da história da humanidade. Convida o homem a ser inteligente e razoável, não apenas no seu conhecer, mas também no seu viver, a guiar as suas acções referindo-as, não ao seu habitat como um animal, mas, como um ser inteligente, ao contexto inteligível de uma ordem universal que existe ou há-de existir. Ainda assim, é difícil para o homem, até mesmo no seu conhecer, o ser-se simplesmente dominado pelo puro desejo, e é-lhe ainda mais difícil permitir que esse desapego e desinteresse domine todo o seu modo de vida. É que, enquanto percepciona, sente, frui e sofre, o eu funciona como um animal num meio ambiente, como um centro apegado a si mesmo e interessado em si mesmo, nos limites do seu próprio mundo estreito de estímulos e respostas. Mas esse mesmo eu, enquanto inquire e reflecte – enquanto concebe inteligentemente e ajuiza razoavelmente – é conduzido pela sua própria espontaneidade superior a um modo de operação assaz distinto, que possui os atributos opostos de desapego e desinteresse. É confrontado com um universo de ser em que se encontra inserido – não o centro de referência, mas um objecto coordenado com outros objectos e, juntamente com estes, subordinado a um destino a ser descoberto ou inventado, aprovado ou desprezado, aceite ou repudiado. Tal é, pois, o paroxismo da tensão da consciência humana. Do lado do objecto, é a oposição entre o mundo dos sentidos do homem-animal e o universo de ser a conhecer pela captação inteligente e pela afirmação razoável. Do lado do sujeito, é a oposição entre um centro no mundo dos sentidos, agindo centrado em si mesmo, e um acesso a um universo de ser inteligivelmente ordenado a que só se pode pertencer e em que só se pode funcionar através do desapego e do desinteresse. A oposição não só é completa como inelutável. Tal como o homem não se pode descartar da sua animalidade, também não pode excluir o Eros da sua mente. Inquirir e compreender, reflectir e julgar, deliberar e escolher são exigências da natureza humana como o são o acordar e o dormir, o comer e o beber, o falar e o amar. Nem sequer elaborando um tipo particular de metafísica ou contra-metafísica se pode escapar do universo de ser e da sua ordem inteligível. É que o universo de ser é tudo aquilo que é apreendido inteligentemente e afirmado razoavelmente; inclui, em virtude da sua definição, uma ordem inteligível; e para nos assumirmos como filósofos de uma escola particular, temos sempre de ter a pretensão de compreender e ser razoável. É esta acrescida tensão que, no desenvolvimento humano, fornece o conteúdo da lei composta e antitética da limitação e transcendência. Todo o desenvolvimento é desenvolvimento na medida em que vai para além do sujeito inicial, mas este ‘ir para além’ é, no homem, imanentemente antecipado pelo desapego e desinteresse do puro desejo. Ademais, todo o desenvolvimento é desenvolvimento na medida em que possui um ponto de partida, um material concreto a ser transformado; mas, no homem, este material concreto encontra-se permanentemente no psiquismo sensitivo auto-centrado que se satisfaz em orientar-se no interior do seu ambiente visível e palpável e em lidar com este de um modo bem sucedido. Nem sequer o puro desejo e o psiquismo sensitivo são duas coisas, uma o ‘Eu’, a outra o ‘Isso’. São o desdobramento, em níveis diferentes, de uma única unidade, identidade, ou todo, individuais. Ambos são ‘Eu’ e nenhum é somente ‘Isso’. Se a minha inteligência me pertence, também os meus sonhos. Se considero que a minha inteligência e razoabilidade são mais representativas de mim que a minha espontaneidade orgânica, é somente em virtude da integração superior que, de facto, a minha inteligência e razoabilidade conseguem impor à sua multiplicidade subjacente – ou, de modo proléptico, em virtude do desenvolvimento, no qual a integração superior alcançará um êxito mais pleno. Mas não importa quão pleno é o sucesso, a situação básica permanece inalterada: a perfeição da integração superior não elimina o integrado nem modidifica a oposição essencial entre auto-centração e desapego. O mesmo ‘Eu’ retém, em níveis diferentes e relacionados entre si, as características opostas. Em quinto lugar, existe uma lei de autenticidade. À primeira vista, trata-se de um caso óbvio de simplicidade e honestidade, de perspicácia e sinceridade. Mas ao aprofundarmos um pouco, emerge um paradoxo. Na medida em que o desenvolvimento ocorre não-conscientemente, a autenticidade não é relevante, pois a simplicidade e a honestidade, a perspicácia e a sinceridade são qualidades de actos conscientes. Por outro lado, pode-se argumentar que, quanto mais consciente um desenvolvimento ocorrer, menor é a probabilidade de este ser marcado pela autenticidade, pois quando falamos de uma alma simples e honesta, não estamos a pensar numa pessoa dada a um auto-escrutínio profundo e prolongado. O que pode, então, a autenticidade ser? Não pertence ao desenvolvimento não-consciente e parece entrar em conflito com qualquer consciência assinalável de desenvolvimento. Será propriedade de algum desenvolvimento transitório que não é inconsciente nem plenamente consciente? E se o é, como pode existir uma lei geral de autenticidade? Eis o paradoxo. Para resolvê-lo, digamos que a exigência de autenticidade é condicional e análoga. É condicional, pois surge na medida em que o desenvolvimento ocorre através da consciência. A autenticidade em que pensamos quando nos referimos a uma alma simples e honesta é o ditoso fruto de uma vida em que não houve lugar para a ilusão e para o fingimento. Mas existe uma outra autenticidade que tem de ser ganha através do auto-escrutínio que expulsa a ilusão e o fingimento; e como esta empresa é difícil e o seu termo duvidoso, não pensamos no seu resultado bem sucedido quando procuramos um exemplo óbvio de autenticidade. À luz destas distinções, a lei da autenticidade pode ser posta nos seguintes termos. Todo o desenvolvimento implica um ponto de partida no sujeito tal como ele é, um termo no sujeito como ele há-de ser e um processo que vai do ponto de partida até ao termo. No entanto, sempre que um desenvolvimento é consciente, existe uma apreensão do ponto de partida, do termo e do processo. Mas tais apreensões podem ser correctas ou erradas. Se são correctas, os componentes conscientes e inconscientes do desenvolvimento operam a partir da mesma base, seguindo o mesmo trajecto e em direcção ao mesmo objectivo. Se são erradas os componentes conscientes e inconscientes operam, em maior ou menor grau, com propósitos contrários. Este conflito é inimigo do desenvolvimento, pelo assim surge a lei condicional da autenticidade, a saber: se um desenvolvimento é consciente, então o seu êxito exige apreensões correctas do seu ponto de partida, do seu processo e do seu objectivo. Mais: além de poderem ser correctas ou erradas, as apreensões que tornam um desenvolvimento consciente podem ser mínimas ou mais ou menos extensas. São mínimas quando implicam pouco mais que a sucessão de actos fragmentários e isolados, necessários para levar a cabo – com atenção, inteligência e razoabilidade – os sucessivos passos do desenvolvimento. São mais ou menos extensas quando nos embrenhamos no pano de fundo, contexto, premissas e interrelações da série mínima de actos conscientes e subsumimos essa compreensão de nós próprios em leis empíricas e teorias filosóficas acerca do desenvolvimento. Ora, se o resto for igual, a probabilidade de erro na série mínima tomada isoladamente é menor que na série mínima ajustada ao seu pano de fundo e à sua explicação teorética; e, por essa razão, esperamos que a autenticidade seja mais comum na alma simples e honesta, desconhecedora da introspecção e da psicologia das profundezas. Mas pode ser o caso de o resto não ser igual – de haver erros que se tenham alojado no pano de fundo habitual de onde emergem os nossas intelecções directas e reflexivas – de, se confiarmos no nosso autoconhecimento virtual e implícito para obter orientação concreta através de um desenvolvimento consciente, a série mínima ser certamente errada, e nunca provavelmente correcta. Em conformidade, a lei da autenticidade não só é condicional como é análoga; torna-se relevante na medida em que o desenvolvimento é consciente; e o que ela exige será espontâneo em alguns casos, e noutros obtido somente através de um auto-escrutínio mais ou menos extenso. A
necessidade da autenticidade é a necessidade de evitar o conflito entre os
componentes inconscientes e concientes de um desenvolvimento. Mas captamos
melhor a questão quando nos perguntamos: por que razão o conflito tem de
surgir? Embora não tenhamos de procurar muito longe para encontrar uma razão,
esta tem a sua profundidade. Como vimos, todo o desenvolvimento implica uma tensão
entre limitação e transcendência. Por um lado, temos o sujeito tal como é,
funcionando de um modo mais ou menos bem sucedido, no interior de um círculo
flexível de domínios de esquemas de recorrência. Por outro lado, temos o
sujeito como um sistema superior A autenticidade é a admissão, na consciência, dessa tensão e, assim, é a condição necessária para a cooperação harmoniosa entre os componentes conscientes e inconscientes do desenvolvimento. Não coloca as questões de parte, não reprime as dúvidas, não minimiza os problemas, não foge em direcção à actividade, à conversa, ao entretenimento passivo, ao sono ou às drogas. Enfrenta as questões, inspecciona-as, estuda os seus vários aspectos, deslinda as suas várias implicações, contempla as suas consequências concretas na nossa vida e na vida dos outros. Se respeita as tendências inertes enquanto forças conservadoras necessárias, não conclui daí que se deva manter uma rotina defeituosa só porque alguém se acustomou a ela. Embora tema o arrepiante mergulho da transformação em algo que não se é, não se esquiva à questão, nem finge bravura ou age por fanfarronice. É capaz de ter segurança e confiança, não só no que foi tentado e considerado bem sucedido, mas também no que ainda há por tentar. Agasta-se com a perpétua renovação das novas questões a enfrentar, anseia pelo repouso, vacila e comete falhas, mas conhece a sua fraqueza e os seus falhanços e não tenta racionalizá-los. Esta autenticidade é ideal. Vai para além do dom inato do desapego e desinteresse que possuimos no puro desejo de conhecer. Pressupõe as acumulações de intelecções directas, introspectivas e reflexivas que são necessárias para distinguir entre questões. Algumas são momentosas, outras importantes, umas secundárias e menores, outras meramente disparatadas. Sem a devida perspectiva e discernimento, o exercício da autenticidade, tal como foi descrito acima, apenas produz uma pessoa séria com a característica notável de se concentrar nas questões erradas. Nem a perspectiva e o discernimento podem ser adquiridos sem que se coloquem as questões significativas. Existe, pois, um círculo vicioso a quebrar, pois não nos podemos tornar sábios e discernentes sem nos concentrarmos nas questões certas e não podemos seleccionar estas questões a não ser que já sejamos sábios e discernentes. Ainda assim, os círculos viciosos são entidades lógicas, e o desenvolvimento é uma série de saltos emergentes da lógica de uma posição para a lógica da seguinte. O sistema superior enquanto em movimento, enquanto operador, não é deduzido apenas de preceitos e máximas, nem somente de impulsos interiores, nem apenas de circunstâncias externas. É uma resposta criativa que cumpre com os requisitos destes três aspectos, numa síntese inteligível concreta. O homem vive, é sensitivo, inteligente, razoável. Nem sequer é uma mónade isolada. O seu desenvolvimento é um movimento desde a relativa dependência da infância para a relativa autonomia da maturidade. E, à medida que se desenvolve, o conteúdo do requisito análogo da autenticidade-para-ele passa da simples exigência do puro desejo de desapego para um desdobramento cada vez mais inteligente, sábio e autoconfiante desse desejo. Por último, existe a sanção da falta de autenticidade. Não ser autêntico não permite escapar à tensão entre limitação e transcendência, mas apenas deslocar essa tensão. Essa deslocação é a raiz do fenómeno dialéctico da escotose no indivíduo, do enviesamento do senso comum, das diferenças filosóficas de base e do seu prolongamento nas ciências naturais e humanas, na moral e na religião, na teoria da educação e na história. Mas isto leva-nos do método genético para o método dialéctico e, por isso, termina aqui a presente discussão. Tudo foi tratado, obviamente, de modo muito geral. E foi-o deliberadamente. Uma estrutura heurística é apenas o enquadramento no qual a investigação tem de introduzir leis específicas e factos particulares. A questão com que nos debatemos não é a de se tratámos adequadamente do desenvolvimento humano. A questão com que nos debatemos é a de se estabelecemos a fertilidade da estrutura heurística, ou mesmo se explicámos o seu modo preciso de aplicação. O nosso tema é o método genético e a única questão é saber se encontrámos a ideia-chave desse método. A nossa exposição apoia-se na estrutura do conhecimento humano. Os seus elementos de base são fornecidos pela teoria dos géneros e espécies explicativos, pela consequente análise do desenvolvimento em geral e pelas características especiais do desevolvimento triplamente composto do homem. Tal como o método clássico assenta na pressuposto que coisas semelhantes devem ser compreendidas de modo semelhante, o método genético assenta no pressuposto que se deve alcançar a compreensão de indivíduos significativamente dissemelhantes através da subsumpção das suas respectivas histórias em princípios genéticos comuns. Ademais, nota que, tal como o método clássico se preocupa com leis, o método genético preocupa-se com tendências emergentes, com sucessões de operadores que modificam sucessivamente as leis a que o sujeito se encontra submetido. Mais ainda, uma vez que o método genético se preocupa com tendências emergentes, o seu objecto só pode ser formulado através da introdução de categorias, nas quais a noção de emergência e suas implicações são expostas adequadamente e com suficiente generalidade. Por último, é por esta razão que a exposição do método genético tinha de aguardar a discussão da metafísica; e, no interior deste contexto metafísico, foi possível, segundo creio, oferecer uma visão integrada única, que encontra o seu ponto de partida no método clássico e, no entanto, abrange a biologia, a psicologia do comportamento e das profundezas, a reflexão existencialista acerca do homem e os elementos fundamentais da teoria do indivíduo e da história social, da moral e do ascetismo, da educação e da religião. 7.5
Contraposições A complexidade da questão que temos vindo a tratar impossibilitou-nos de entrelaçar na nossa exposição a consideração de visões contrárias e das nossas razões para as rejeitar. Contudo, de tais contrastes resulta um aumento de clareza, pelo que, se não quisermos ser mal-interpretados, melhor é que tentemos dar uma indicação negativa da nossa posição. O
leitor interessado encontrará Em primeiro lugar, as nossas posições acerca da realidade e da objectividade separam-nos do mecanicismo. Na nossa posição, não só há espaço como também relevância para todas as intelecções que a física e a química podem fornecer ao biólogo, pois o organismo é um sistema superior de multiplicidades químicas e físicas subjacentes, e um sistema superior de modo algum viola a autonomia das leis físicas e químicas. Além disso, na nossa posição, é bem-vinda a descoberta de conexões como o reflexo condicionado e o tropismo, pois todas essas conexões são apenas partes no círculo flexível de domínios de esquemas de recorrência. Mas não podemos deixar de rejeitar a crença mecanicista de que a realidade consiste em elementos imagináveis enquanto imaginados, pois essas imagens são inverificáveis; e não podemos partilhar da esperança mecanicista de que, um dia, as leis da física e da química explicarão todos os fenómenos biológicos, pois toda a prova em favor dessa esperança é a crença mecanicista de que a realidade consiste em elementos imagináveis enquanto imaginados. Em segundo lugar, a nossa rejeição do mecanicismo não é uma afirmação do vitalismo, pois não acreditamos que o vitalismo – pelo menos, tal como é habitualmente concebido – seja suficientemente radical na sua rejeição do mecanicismo. É que o vitalista parece aceitar a visão mecanicista de que a realidade consiste em elementos imagináveis enuanto imaginados, mas acrescenta que também existem enteléquias inimagináveis e vitais. Por contraste, rejeitamos abertamente a crença de que a realidade última é conhecida através de um conjunto de imagens inverificáveis e, se afirmamos formas, afirmamo-las não só de organismos, mas também de electrões, protões, átomos e compostos químicos. Nem se deve apelidar tal afirmação de mania do mistério. É que um mistério é o que não é conhecido, mas a forma é o que é conhecido na medida em que compreendemos correctamente. O verdadeiro mistério é que, embora os cientistas sejam universalmente considerados homens inteligentes, se pense, apesar de tudo, que é escandaloso sugerir que eles conheçam algo através da compreensão ou que conheçam melhor e de modo mais adequado quando compreendem melhor e de modo mais adequado. Em terceiro lugar, ainda que afirmemos formas tanto de átomos como de organismos e ainda que o façamos pela mesma razão em ambos os casos, não afirmamos, contudo, que o biologia lida com o mesmo tipo de formas conjugadas que a química ou a física. Se compararmos os elementos químicos, descobrimos que alguns – por exemplo, os gases inertes – são altamente estáveis, enquanto outros facilmente e quase infinitamente formam compostos. Ainda assim, tanto os elementos químicos estáveis como os instáveis são sistemas estáticos; o carbono de um dado peso atómico e número jamais dará lugar a uma série em desenvolvimento de instâncias de carbono desse peso e número, não importa quão alargado seja o domínio de compostos em que entra. A característica que distingue o organismo é que, neste, a instabilidade é confrontada e contrabalançada por um sistema em movimento, sendo a mesma unidade individual diferenciada por uma sequência explicativa de formas conjugadas, e estas sequências são membros da sequência mais abrangente de estratégias cada vez mais arrojadas e dotadas de recursos, pelas quais os organismos resolvem o problema de viver num meio ambiente. Em quarto lugar, na nossa afirmação de formas centrais concordamos com os defensores do holismo ou organicismo. Mas não afirmamos somente a unidade inteligível a ser captada nos dados enquanto individual, mas também as funções e relações inteligíveis a serem captadas nos dados enquanto pertencem a tipos. Para além disso, estas relações e funções inteligíveis não só são emergentes nas multiplicidades subjacentes e determinam o círculo flexível de domínios de esquemas de recorrência, como constituem um sistema superior em movimento que assim integra a multiplicidade subjacente, de modo a fazer emergir uma outra integração diferente. Em quinto lugar, empregamos o termo ‘emergência’, mas fazemo-lo num sentido assaz determinado para denotar um facto assaz inquestionável. O protótipo da emergência é a intelecção que surge relativamente a uma imagem apropriada; sem a intelecção, a imagem é uma multiplicidade coincidente; os elementos da imagem tornam-se, pela intelecção, inteligivelmente unidos e relacionados; além disso, as acumulações de intelecções unificam e relacionam domínios de imagens cada vez maiores e mais diversificados, e o que permanece meramente coincidente de um ponto de vista inferior torna-se sistemático pela acumulação de intelecções num ponto de vista superior. Se assim se torna determinado o sentido da emergência, também o facto se torna inquestionável. Existem processos de rotina, e ao longo deles podem verificar-se as mesmas leis clássicas e estatísticas. Existem mudanças de estado, e durante estas as leis estatísticas são modificadas, mas as leis clássicas permanecem as mesmas. Mas existem também processos emergentes, e as leis clássicas que podem ser verificadas no início destes não são as leis clássicas que podem ser verificadas no seu final. Há correlações que podem ser verificadas no organismo adulto. Há correlações que podem ser verificadas no óvulo fertilizado. Mas os dois conjuntos de correlações não são idênticos. Em determinados materiais, ocorreu uma alteração no que pode ser captado pelo intelecção, formulado como lei e afirmado como verificado. Um conjunto de formas conjugadas deu lugar a um outro. O trânsito de um conjunto para outro é regular. Mas este trânsito regular não se dá de acordo com a lei clássica, pois não existem leis clássicas acerca de mudanças nas leis clássicas; nem tão-pouco se dá de acordo com a lei estatística, pois não se trata de uma escolha indiferente de entre um conjunto de processos alternativos; e assim é-se forçado a reconhecer o facto de um terceiro tipo de processo a ser investigado por um terceiro método, o genético. Em sexto lugar, Kant afirmou uma máxima de intencionalidade formal como sendo relevante à investigação biológica. Essa intencionalidade não fazia parte da realidade investigada, mas era um componente necessário do ordenamento inteligível dos dados efectuado pela mente. Ora, nós afirmamos a finalidade num sentido que já foi definido. É uma afirmação de dinamismo, de um estar-dirigido em geral para uma inteligibilidade e sistematização mais plenas, e da consecução de uma plenitude cada vez maior mas nunca completa, através de uma probabilidade efectiva. Um exemplo claro do significado exacto de tal finalidade é a estratégia flexível do sistema superior dinâmico e também da sucessão cumulativa de estratégias cada vez mais arrojadas e ricas. A nossa afirmação da finalidade não significa mais do que o que pode ser captado inteligentemente nos dados e afirmado razoavelmente com base nos dados. Mas o real é o ser, e o ser é o que há para ser capatado inteligentemente e afirmado razoavelmente. Neste aspecto, a finalidade é tão real como qualquer outra coisa. Na medida em que a intencionalidade formal de Kant implica um certo antropocentrismo e também uma maior determinação que a nossa noção de finalidade, estamos prontos a conceder-lhe o seu estatuto subjectivo, mas nesse caso negamos a sua relevância para a investigação biológica. As posições de Kant neste campo não são mais que uma consequência da sua posição geral e, como já foi sugerido, o melhor fundamento dessa posição é uma rejeição incompleta de visões ingénuas da objectividade, juntamente com uma incapacidade de reconhecer o virtualmente incondicionado como constitutivo do juízo e, por isso, de alcançar o universo de ser. Em sétimo lugar, embora estejamos basicamente de acordo com Aristóteles, divergimos claramente dele em muitos aspectos, e não será despropositado clarificar o assunto de modo muito sucinto. Aristótles reconheceu formas centrais e conjugadas: tal como a visão está para o olho, também a alma está para o animal na sua totalidade. A sua ‘forma’ é também um fim: a visão é a inteligibilidade captada não apenas no olho e nervo óptico desenvolvidos, mas também, de modo proléptico, no olho em desenvolvimento do feto. Distinguiu a coisa-para-nós da coisa-em-si: as formas não só são captadas nas apresentações sensíveis, como também existem numa matéria-prima que é pura potência e, por isso, carece de qualquer descrição categorial. Por outro lado, Aristóteles não captou a noção de pontos de vista superiores sucessivos, nem a empregou para explicar os géneros e espécies explicativos. Não captou a noção de probabilidade enquanto explictiva, nem concebeu uma probabilidade emergente, nem pensou em formas superiores como explicativas das regularidades nas multiplicidades subjacentes de algum modo coincidentes. Não concebeu a finalidade como indo para além de toda a consecução genérica e especificamente determinada, e a sua análise do movimento enquanto acto incompleto é apenas uma aproximação distante à noção de desenvolvimento enquanto sistema superior movendo-se uma perfeição indiferenciada pra uma perfeição plenamente diferenciada. Por último, não existe na sua posição a possibilidade sequer de conceber o desenvolvimento humano como um movimento triplamente composto de sistemas superiores sucessivos. 8. SUMÁRIO Concebeu-se a metafísica como a estrutura heurística integral do ser proporcionado. O ser proporcionado é o que há para ser conhecido pela experiência, pela captação inteligente e pela afirmação razoável. A estrutura heurística integral é o esboço por antecipação do que seria conhecido ao afirmar uma explicação completa da experiência. O significado da metafísica não reside no futuro, mas sim no presente. É indiferente para a metafísica se irá ou não existir uma data futura, na qual se atingirá a explicação completa. Mas é uma questão de suprema importância para a metafísica rejeitar-se, aqui e agora, todo o obscurantismo e, assim, aceitar o empenho na explicação completa, em todas as suas implicações. Ademais, o valor de um esboço por antecipação de uma explicação completa hipotética não deve ser medido pelo grau em que se antecipa a explicação futura. É que a questão metafísica não é a ordem presente do conhecimento futuro, mas sim a ordem imanente à dinâmica de todo o conhecimento, seja ele passado, presente ou futuro. Mesmo quando a ciência tiver explicado todos os fenómenos e o senso comum tive sido expurgado de todo o enviesamento, permanece a questão da unificação das ciências e múltiplas instâncias do senso comum. Uma vez que esta questão jamais será resolvida pela ciência ou pelo senso comum, a sua resposta pode ser estabelecida, desde já, nas suas linhas estruturais gerais; e o importante na resposta não é o valor de uma previsão, mas o valor de uma ordem e perspectiva correctas no conhecimento e inquirição presentes. Tal como o seu significado, também a prova da metafísica reside no presente. Mas o carácter único da metafísica torna extremamente difícil uma exposição da prova. Qualquer doutrina pode ser apresentada num conjunto de definições, postulados e definições. Mas a prova não reside na expressão vocal ou escrita exteriorizadas, nem no assentimento interior, mas sim na captação reflexiva prévia que compele a razoabilidade a assentir. Uma vez aceites as definições e os postulados, a dedução torna manisfesto o incondicionado que há para ser captado reflexivamente. Mas as definições e os postulados da metafísica são uma pluralidade de alternativas em disputa; a prova que permite distingui-las é tão vasta como o universo sobre o qual se pronunciam; e uma captação dessa prova não reside ao alcance imediato de qualquer mente indolente, mas apenas surge no termo de uma longa e difícil acumulação de intelecções directas e reflexivas. Por esta razão, uma exposição das provas da metafísica tem de ser feita em termos dinâmicos. Se uma imagem especial e uma metáfora militar forem de alguma utilidade, o avanço da evidência metafísica é simultaneamente uma ruptura das linhas inimigas, um cerco e uma contenção. A ruptura é efectuada na afirmação do eu individual como empírico, inteligente e racionalmente consciente. O cerco é efectuado pela noção proteica do ser como tudo o que se capta inteligentemente e se afirma razoavelmente. A contenção é efectuada através da oposição dialéctica de noções dúplices de real, conhecimento e objectividade, de modo que qualquer tentativa de fuga é bloqueada pela consciencialização de que só se estaria a substituir uma contraposição por uma posição conhecida, a desertar do ser que pode ser captado inteligentemente e afirmado razoavelmente, a distorcer a consciência que não é apenas empírica mas também inteligente, não apenas inteligente mas também razoável. Uma vez lançado e efectivamente retido este fundamento, pode prosseguir-se rapidamente com a erecção da estrutura heurística integral do ser proporcionado. Num primeiro momento, a crítica dialéctica transforma as posições científicas e de senso comum, de modo a fornecer a premissa menor secundária do argumento. Num segundo momento, a teoria cognitiva evidencia os quatro métodos da investigação possível, as condições do seu uso e a possibilidade da sua integração, de modo a gerar a premissa menor principal. Num terceiro momento, a compreensão metafísica une a premissa menor principal à secundária, de modo muito semelhante ao físico que une uma equação diferencial com condições-limite estabelecidas empiricamente, a fim de obter a estrutura heurística integral relevante para este universo. Num quarto momento, invoca-se o isomorfismo do conhecer e do conhecido: o padrão das relações imanentes à estrutura dos actos cognitivos também se pode encontrar nos conteúdos dos actos antecipados, e ainda se poderá verificar quando os conteúdos heurísticos dos actos antecipados derem lugar aos conteúdos actuais dos actos ocorrentes. Para resumir o segundo momento, começa-se por notar que a compreensão conduz à formulação de sistemas, e que se pode supor que os sistemas se mantêm constantse ou que mudam ao longo do tempo. Ademais, além da compreensão directa que posiciona sistemas, existe a compreensão inversa que assenta na assumpção oposta de uma inteligibilidade defeituosa. De acordo com isto, a antecipação de um sistema constante a ser descoberto funda o método clássico; a antecipação de uma sequência de sistemas inteligivelmente relacionada funda o método genético; a antecipação de que os dados não se irão confomar aos sistemas funda o método estatístico; e a antecipação de que as relações entre estádios sucessivos de um sistema em mudança não serão directamente inteligíveis funda o método dialéctico. Mas os dados têm ou não de se conformar ao sistema, e os sistemas sucessivos têm ou não de se relacionar de um modo directamente inteligível. Por conseguinte, tomados em conjunto, os quatro métodos são relevantes para qualquer campo de dados; não ditam o que os dados devem ser; são capazes de lidar com os dados, independentemente do que estes venham a ser. No entanto, o uso dos métodos tem uma condição básica. Dirigem-se a sistemas e estruturas gerais que, apesar da sua generalidade, têm de ser descobertas, verificadas e aplicadas nos dados, dados esses que são individuais. Para se ligar inteligivelmente os dados individuais às estruturas gerais é preciso um tipo distinto de compreensão que capte unidades, identidades, e todos concretos. Daqui se segue que as estruturas gerais têm a ver com as propriedades das coisas, sendo as propriedades e as coisas o que há para ser conhecido ao se compreenderem os mesmos dados através de procedimentos diferentes mas complementares. Para além da unidade devida à referência concreta, os métodos também possuem unificações estruturais. Assim, num universo em que tanto o método clássico como o estatístico são relevantes, pode-se mostrar que a inteligibilidade imanente da ordem dos eventos é uma probabilidade emergente. Ademais, num universo em que as mesmas coisas têm propriedades que são investigadas por ciências distintas e autónomas, a noção de pontos de vista superiores sucessivos é, por si só, capaz de relacionar inteligivelmente as propriedades genericamente distintas da mesma coisa, sem violar a autonomia das ciências. Segue-se daí uma probabilidade emergente generalizada tanto para coisas como para eventos, combinando-se a estrutura heurística do conhecimento com a finalidade do ser. Passando agora ao quarto momento do argumento metafísico, introduziram-se as noções de potência, forma e acto, centrais e conjugados. O ser proporcionado é o que há para ser conhecido pela experiência, captação inteligente e afirmação razoável. A estrutura heurística integral do ser proporcionado é a estrutura do que há para ser conhecido quando o ser proporcionado for completamente explicado. Mas nesse conhecimento explicativo haverá afirmação, compreensão e experiência do resíduo empírico. ‘Acto’ denota o que é conhecido na medida em que se afirme; ‘forma’ é o que é conhecido na medida em que se compreende, e ‘potência’ é o que é conhecido na medida em que se experiencia o resíduo empírico. Da distinção, relações e unidade dos conteúdos experienciados, inteligíveis e afirmados seguem-se a distinção, relações e unidade da potência, forma e acto. Dos diferentes modos de compreender coisas concretas e leis abstractas segue-se a distinção entre formas centrais e conjugadas e, como corolário, as distinções entre potência central e conjugada e entre actos centrais e conjugados. Da unificação estrutural dos métodos através da probabilidade emergente gerneralizada segue-se a consideração estrutural dos géneros e espécies explicativos e da ordem imanente do universo do ser proporcionado. São estes os elementos da metafísica. Resta uma tarefa, a iniciar no próximo capítulo: a de investigar de um modo um pouco mais profundo a natureza destes elementos e suas relações. Mas não será inoportuno localizar, mais uma vez, a nossa posição na história da filosofia. Existe um necessário isomorfismo entre o nosso conhecimento e o seu conhecido proporcionado. Mas este paralelismo é descurado pela ordo idearum est ordo rerum dedutivista de Espinosa. O lugar correcto do paralelismo deve ser encontrado na estrutura dinâmica do nosso conhecimento. A inquirição e a compreensão pressupõem e complementam a experiência; a reflexão e o juízo pressupõem e complementam a compreensão. Mas o que vale para as actividades, vale também para os seus conteúdos. Aquilo que é conhecido na medida em que se compreende pressupõe e complementa o que é conhecido pela experiência; e o que é conhecido na medida em que se afirma pressupõe e complementa o que é conhecido pela compreensão. Por último, os conteúdos dos actos cognitivos ou se referem ao conhecido ou são idênticos ao conhecido e, assim, a estrutura dinâmica do conhecimento é também a estrutura do ser proporcionado. Isto foi captado por Aristóteles e, de um modo mais pleno, por Tomás de Aquino, e se a presente consideração da material diverge nalguns detalhes da posição destes, a diferença reside no facto de a ciência moderna ter tornado possível distinguir muito claramente entre descrição preliminar e explicação científica. [1]
O aspecto histórico da presente análise foi apresentada, com algum
detalhe, nos meus artigos acerca de “The Concept of Verbum in the
Writings of St. Thomas Aquinas”, Theological Studies, VII (1946),
349-92; VIII (1947), 35-79, 404-44; X (1949), 3-40, 359-93. Para um
excelente resumo destes artigos, veja-se L. B. Geiger, O.P., Bulletin
thomiste, VIII2 (1952), 477-79, §740. Acerca da íntima relação,
tanto em Aristóteles como em Tomás de Aquino, entre insight e eidoV,
forma, veja-se Theol. Stud. VII (1946), 360 e ss. Acerca da
equivalência assaz comum em Tomás de Aquino de actus, actio,
operatio, no sentido da energeia
de Aristóteles enquanto distinta da poihsiV,
veja-se Theol. Stud. VIII (1947), 408-41 passim. Em
poucas palavras, devo dizer que a presente divisão do ser em potência,
forma e acto equivale às afirmações de Tomás de Aquino de que (1) ens
dividitur per potentiam et actum, (2) existem dois tipos de actus,
a saber forma e operatio, e (3) existem dois tipos
correspondentes de potentia, dos quais um é potentia para forma
e o outro, idêntico à forma, é potentia para operatio
(veja-se Quaest. disp. De
Potentia q. I, a.I, e In
Metaphys., lect. 5,
§§1828 e ss.). Por
fim, o significado sistemático desta tríade não é apenas evidente na
composição tripartida da substância material, mas também no papel
desempenhado pela potência, pelo hábito e pelo acto no âmbito da Prima
Secundae (Sum. theol. , I-II, q. 6, Introd., e q.
49, Introd.). [2] (Lindsay e Margenau, Foundations of Physics, pág. 120), |



